Ministro do Ambiente anunciou plano de 700 milhões para transportes, com compromisso de forte reforço de postos de carregamento elétricos
O Governo tem um plano de investimento na renovação e descarbonização dos transportes públicos de 720 milhões de euros, ao longo dos próximos cinco anos, revelou o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, na abertura do segundo dia da Lisbon Mobi Summit, no SUD Lisboa, em Belém. Mais de metade daquele montante, cerca de 400 milhões, virá diretamente das receitas do Fundo Ambiental para apoiar a eletrificação dos transportes, precisou o governante.
O ministro referiu que a aquisição de 516 autocarros de elevada performance ambiental e de mais 100, para breve, representa "o maior investimento na Europa neste domínio", num total de 150 milhões de euros.
Uma "posição honrosa", igualmente destacada pelo secretário de Estado Ajunto do Ambiente, José Gomes Mendes. "Dois por cento dos carros vendidos em Portugal são elétricos, híbridos ou movidos a bateria, sendo poucos, à exceção da Noruega,os países europeus que apresentam estes indicadores", disse o responsável. O objetivo é que "dentro de três a quatro anos, haja um carregamento rápido para cada 80 veículos e um carregamento lento/normal para cada 15 carros, na rede pública".
Mas, como assinalou o fundador do Processo de Paris para a Mobilidade e Alterações Climáticas, Patrick Oliva, a eletrificação não resolve tudo. Patrick Oliva defende que os países devem manter uma visão aberta para combinar diferentes combustíveis não poluentes, para se chegar mais rapidamente a soluções viáveis. "Temos de fazer mais e agora", asseverou, lembrando que o hidrogénio é uma possibilidade. A aposta foi feita no passado, mas entretanto, praticamente abandonada. O especialista avisou que, neste momento, se descarrilou rumo ao objetivo da descarbonização em 2050. "Mas acredito que podemos lá chegar."
A Transdev, maior transportadora da Europa, apesar de focada no esforço de descarbonização, testemunhou as dificuldades e o elevado custo do processo, pela voz do seu diretor de estratégia e inovação, Xavier Aymonod. Em causa está uma frota de mais de mil autocarros, dos quais 70% ainda funcionam a diesel, 11% a gás e apenas 5% a eletricidade. A sua substituição antes de cumprido o período de vida útil dos autocarros comporta custos muito elevados, observou.
Uber eletrifica rede
Presente em 600 cidades e 65 países, a Uber opera a uma escala global e tem na mobilidade partilhada e na autónoma duas vias de futuro. Tomás Bélchior, Head of Public Policy para Portugal, disse que vai investir na eletrificação da frota. Portugal teve o primeiro veículo Uber Green até 2025 a Uber no Reino Unido deverá usar apenas elétricos.
A mobilidade partilhada é uma das faces da revolução em curso neste setor e a emov é um exemplo disso mesmo, uma empresa de carsharing que utiliza apenas veículos elétricos. "Neste momento tem uma oferta de 600 carros em Madrid e 150 em Lisboa, disse Fernando Izquierdo, o diretor-geral da emov Espanha e Portugal. "Em Madrid, o que está a acontecer é incrível", disse para exemplificar o crescimento da concorrência neste tipo de serviço, desde que a empresa começou a operar, em 2016. "Isto é uma autêntica revolução", conclui Fernando Izquierdo.
A Drive Now é já o exemplo, em Portugal, deste serviço operado pela Brisa. "Primeiro temos de criar soluções, depois virá o hábito", seja para aderir à mobilidade partilhada, ou ao modo "boleias", resumiu o diretor de operações da Drive Now, João Oliveira. "A Brisa foi e continua a ser muito importante para alterar os hábitos de mobilidade das pessoas", conclui, garantindo que, depois de utilizarem a app, as pessoas ficam fãs deste método.
Medina critica partidos
"Baixar o preço dos tarifários, criar uma boa rede de transportes públicos, passar o comando desta matéria para os municípios e concluir o concurso rodoviário integrado a nível metropolitano" são algumas das soluções apontadas pelo presidente da Câmara de Lisboa, para resolver o problema que deriva da entrada diária de 370 mil carros em Lisboa. Fernando Medina falava na sessão dedicada às cidades, e aproveitou para criticar a oposição : "Todos os partidos menos um" ( o PS) "aprovaram uma redução do ISP" que "não aproveita a ninguém" pois "promove o consumo de transportes poluentes e aumenta as importações de combustíveis e de automóveis" e cujo valor, se fosse transferido para a promoção do transporte público, daria "para pagar não só a redução dos preços dos passes socias em Lisboa e Porto" como outras iniciativas semelhantes "por todo o país".
O excesso de tráfego é igualmente um problema da cidade de Bruxelas, onde dos 1,6 milhões de pessoas, que lá circulam, metade anda de carro. Pascal Smet, o ministro para Mobilidade do município, considera que estamos, apesar de tudo, a assistir a um regresso ao passado. "As cidades europeias estão a mudar. Há o regresso das bicicletas, as pessoas estão a andar, tal como no início do século XX", referiu, considerando que veremos que "o maior erro foi a invenção do carro particular". Perante o hábito enraizado, Pascal Smet ironizou: "devíamos fazer as pessoas felizes contra a sua vontade."
Outro território em destaque foi Macau, com os seus "650 mil habitantes concentrados em 32 quilómetros quadrados, a que acrescem mais tem 30 milhões de visitantes por ano". Este enquadramento "faz com que os transportes e vias públicas tenham uma densidade populacional muito grande", disse José Luís Sales Marques, ex-presidente do Leal Senado. Segundo aquele responsável, este problema começou a tentar ser resolvido aquando da elaboração de um plano urbanístico em 2010. Mas a solução está longe de chegar, lamentou.
Indústria 4.0 avança
Convidada para encerrar a Lisbon Mobi Summit, no workshop dedicado às startups, a secretária de Estado da Indústria, Ana Lehmann, referiu que as empresas portuguesas são exemplos de inovação,em várias áreas, sendo Portugal atrativo para as empresas estrangeiras investirem. Exemplificou coma Volkswagen e o seu centro de desenvolvimento de software, ou com a Mitsubishi, que está a criar a primeira e-truck na fábrica do Tramagal.
"Bicicletas, scooters, carros, drones, aeronaves, temos de tudo. Portugal tem de aproveitar a vaga de oportunidades", salientou, chamando a atenção para a importância de apostar na inteligência artificial, admitindo que a União Europeia está atrasada neste processo, face aos Estados Unidos e China.
A governante revelou ainda que no programa Indústria 4.0, que visa aumentar a digitalização no setor, "59 das 64 medidas já foram executadas", em ano e meio, e até ao final do ano , deverão ser concluídas as restantes.