
Tecnologia autónoma chega às motos para melhorar segurança

A BMW está a trabalhar numa moto que se conduz sozinha e há mais empresas a desenvolverem autonomia em duas rodas
Para os amantes de motociclos, o prazer de conduzir faz parte do motivo pelo qual escolheram este meio de transporte e a ideia de uma moto autónoma pode não ser apelativa. Mas o objetivo da BMW, que está a trabalhar neste projeto há três anos, não é substituir os condutores de motos, ao contrário do que está a ser desenvolvido para carros e camiões. A construtora alemã tem um protótipo funcional de uma BMW R 1200 GS autónoma, que pretende usar para melhorar a segurança dos condutores e reduzir a possibilidade de acidentes quando estes vão distraídos. No fundo, a BMW está a levar para as motos o tipo de tecnologias de assistência à condução que já chegaram aos carros.
"Neste projeto, o nosso objetivo não era desenvolver uma moto totalmente autónoma", disse o engenheiro Stefan Hans, que lidera a equipa de desenvolvimento na BMW Motorrad, na apresentação do projeto. "Queremos melhorar a segurança das motos", afirmou, explicando que a ideia é usar este protótipo para desenvolver funcionalidades de conforto e segurança em modelos futuros.
Nos vídeos de demonstração que a BMW divulgou, a moto é capaz de acelerar sozinha, reconhecer curvas e travar. O modelo conduz-se autonomamente em diferentes cenários, incluindo em estrada aberta, fora de circuitos fechados. "O protótipo ajuda-nos a expandir o nosso conhecimento acerca da dinâmica do veículo", afirmou Stefan Hans, sendo que o intuito deste trabalho é "classificar o comportamento do condutor e determinar se uma situação vai ser perigosa no futuro ou não." Se sim, a moto pode alertar o condutor ou intervir diretamente, por exemplo travando ao chegar a uma intersecção, e terá a capacidade de dar estabilidade em situações de condução críticas.
A injeção de inteligência nas motos permitirá melhorar a segurança dos condutores, acredita a BMW Motorrad. Segundo dados da Comissão Europeia, os países do sul da Europa têm taxas de fatalidades em moped e motos de alta cilindrada mais elevadas que no resto do Continente. Portugal é referenciado tanto num caso como no outro, lendo-se que "Portugal, França e Eslovénia ainda têm elevadas taxas de fatalidades por 10000 veículos."
Nos Estados Unidos, o cenário também é preocupante. De acordo com dados publicados em 2018 pela GHSA (Governors Highway Safety Association), a probabilidade de um acidente ser fatal era 28 vezes superior para motociclistas em comparação com passageiros num carro.
O que a BMW Motorrad está a fazer não é único na indústria. A Honda concebeu uma moto capaz de se equilibrar sozinha, "Honda Riding Assist", em que o principal objetivo é prevenir quedas durante pausas na condução. A Yamaha apresentou o conceito MOTOROiD, que usa inteligência artificial para reconhecer a cara e comportamento do dono, sair do modo descanso e ir ter com ele. A Bosch desenvolveu um sistema de estabilidade para motos para dar apoio ao condutor na aceleração, travagem, retas e curvas. A assistência, segundo a empresa alemã, é dada pela "monitorização contínua de uma série de dados-chave do veículo", incluindo torque, ângulo de inclinação e aceleração, "para detetar situações críticas e intervir se necessário."
Uma iniciativa paralela que também é interessante passa pela Uber. Há algumas semanas, soube-se que a Uber está a explorar o desenvolvimento de trotinetes e bicicletas autónomas, tendo criado a divisão Micromobility Robotics para esse efeito. A integração de autonomia neste tipo de veículos acontece à medida que a Uber explora novas formas de partilhar transporte, sendo que a Micromobility vai operar dentro da unidade Uber Jump, que é responsável precisamente pela partilha de trotinetes e bicicletas.
Segundo informação dada pela empresa num formulário de recrutamento para a nova divisão, a equipa "está a explorar formas de melhorar a segurança, experiência do condutor e eficiência operacional" das trotinetes e bicicletas partilhadas, "através da aplicação de tecnologias de sensores e robótica." A ideia é que estes veículos cheguem sozinhos ao local onde estão os clientes e aos pontos de carregamento.
Em todos os casos, a autonomia está definitivamente a chegar às duas rodas.
Ana Rita Guerra, Los Angeles