A pandemia contaminou o digital e acelerou o futuro

2020
18-05-2020

Será que a nova mobilidade digital vai sustentar a reconstrução da economia? Os especialistas que participaram na primeira sessão do Portugal Mobi Summit acreditam que este é um caminho sem retrocesso.

  Num momento em que as famílias estão em casa, as viagens canceladas ou boa parte das deslocações para o trabalho ainda suspensas, só a palavra mobilidade soa a provocação. Mas foi justamente esse o debate virtual que ligou o jornalista Paulo Tavares, no estúdio da TSF, em Lisboa, às salas e escritórios de quatro especialistas do setor – Paula Panarra, diretora-geral da Microsoft Portugal, Bernardo Correia, country manager da Google Portugal, Helena Silva, chief technology officer no CEiiA e José Ferrari Careto, diretor da Digital Global Unit da EDP. Em plena crise pandémica, arrancou a edição de estreia do Portugal Mobi Summit 2020 – o evento, organizado pelo Global Media Group e a EDP, que, nos dias 8 e 9 de outubro, culminará com a grande cimeira na Nova SBE, em Carcavelos. Começou com uma provocação, é certo, mas que deixa de ser quando enquadrada nesta grande interrogação: "O digital vai ser a nova mobilidade?" E, agora, facilmente se concluirá que, por ironia, a mobilidade nunca esteve tão acelerada.

"Ao romper-se as barreiras entre os espaços físico e digital, há novas realidades a emergir, sendo agora pouco provável que desapareçam com o fim da pandemia."

Helena Silva, CEiiA

  O mundo, nestes últimos meses, deu um salto digital. E, a partir de agora, "nada voltará a ser como dantes", avisa Bernardo Correia. Não são apenas as normas sociais que se alteraram com o perigo da Covid-19. São também os negócios que tiveram de se adaptar aos tempos da pandemia. "Vimos exemplos de muita criatividade a atravessar grandes e, sobretudo, pequenas empresas." Novas abordagens surgiram no intervalo de duas ou três semanas e, muitas delas, apesar de terem começado por ser "estruturais", irão "passar a permanentes", acredita o responsável da Google Portugal. São mudanças que entraram não apenas nas "formas de estar no mercado", mas também nos modelos de organização das empresas, acrescenta a diretora-geral da Microsoft Portugal. "Muitos dos paradigmas sobre as possibilidades do trabalho remoto – colaboração em tempo real ou poupança de tempo e de emissões – aceleraram-se com esta crise", defende Paula Panarra.  

"Vimos, nestes meses de confinamento, exemplos de muita criatividade e inovação a atravessar grandes, médias e sobretudo as pequenas empresas."

Bernardo Correia, Google

 

Os estreantes em tecnologias

Muita gente teve de lidar pela primeira vez com as tecnologias. E isso, explica José Ferrari Carreto, "é uma oportunidade fantástica" que empresas, autarquias e qualquer pessoa deverão agarrar para que este processo não fique por aqui. "Um dos principais drivers na adoção de novas ferramentas digitais é a necessidade", relembra o diretor da Digital Global Unit da EDP. Poder-se-á fazer até um "enorme investimento" na sensibilização, mas haverá sempre a "divisão clássica" entre os que rapidamente aderem e os que resistem. "No fim, aquilo que move mesmo as pessoas é a necessidade – está estudado, provado e publicado." E a necessidade acelerou não somente a adoção das tecnologias, como provou que a inovação pode acontecer em "ciclos de adaptação" muito rápidos, defende Paula Panarra. "Estamos a ver isso com as mais variadas novas aplicações, serviços, formas de consumir, comprar, vender e produzir." Não se julgue que foi preciso um súbito ataque do coronavírus para empresas e trabalhadores descobrirem as maravilhas da tecnologia. Nem tal seria possível num mundo que é cada vez mais global. Boa parte das organizações já dependia do digital no dia-a-dia. "No CEiiA, há várias realidades, mas o teletrabalho é um recurso bastante regular para desenvolver projetos com os nossos parceiros em Itália, Inglaterra ou Suíça", conta Helena Silva, chief technology officer no Centro de Desenvolvimento de Produto, sediado em Matosinhos. Na Microsoft Portugal, parte da infraestrutura digital já estava "bem oleada" com a possibilidade de todos os empregados poderem trabalhar remotamente, explica a diretora-geral. E, tendo a Google equipas deslocalizadas no mundo inteiro, sempre houve uma "política flexível", face ao trabalho em casa, diz Bernardo Correia. As rotinas digitais já eram, portanto, uma preocupação das empresas. No caso da EDP, não unicamente para "melhorar a eficiência" como também para proporcionar "conforto" e "reduzir" deslocações desnecessárias. "O que aconteceu com a Covid-19 é que amplificámos as ferramentas e a sua utilização", conclui. E com a utilização mais frequente das plataformas tecnológicas, tornou-se possível também constatar que, em boa parte dos casos, os recursos digitais revelaram-se mais eficientes do que os velhos hábitos: "Aquelas deslocações antes vistas como necessárias podem, afinal, ser evitadas, criando oportunidades para cortar nas emissões", admite Helena Silva. E até o conceito de "centralidade" sofreu uma reviravolta com a "proximidade digital" a resolver muitos dos problemas sem necessidade de deslocações a Lisboa ou ao Porto. "Estas são algumas das razões que me levam a pensar como a forma de trabalhar e de nos deslocarmos se vão alterar mesmo depois da crise pandémica." Não apenas as deslocações como a própria forma como as empresas e os trabalhadores reorganizaram as rotinas teve implicações na produtividade. Começando pela pontualidade – conta Paula Panarra – com as reuniões a começar e a acabar com hora marcada, dado que a seguir começa outra. "A gestão do tempo passou a ser mais planeada pois há a preocupação de balancear o trabalho com as horas de família e tarefas domésticas."  

Poder-se-á fazer até um enorme investimento na sensibilização, mas no fim aquilo que move as pessoas é a necessidade – está estudado, provado e publicado.

José Ferrari Carreto, Digital Global Unit da EDP

  Não só começam e acabam no tempo previsto, como são também "mais focadas" e sem margem para "assuntos colaterais", acrescenta José Ferrari Careto. "Obviamente há situações que exigem presença física e essas mantêm-se, mas as reuniões do dia-a-dia estão a funcionar à distância com níveis de produtividade iguais ou até superiores."  

Recuperar atrasos

Estamos agora num ponto de viragem que, a continuar, poderá resultar em saltos no progresso. "Portugal tinha um atraso substancial na utilização de alguns dos serviços digitais e esta crise acabou por ser uma chamada de atenção", defende Bernardo Correia. Há muitos aspectos na organização e modelos de negócios que subitamente ganharam novos ângulos, diz o country manager da Google Portugal. "As maneiras como as empresas consideram a segurança dos seus empregados, como olham para a localização desses mesmos empregados, como se preparam e se adequam para os picos ou quebras na procura, tudo isso vai acelerar o movimento de negócios para os serviços digitais, que está em marcha e não irá retroceder." Ao se romperem "barreiras" entre os espaços físico e digital, bem como a forma como as pessoas se relacionam entre elas, Helena Silva está convencida de que há novas realidades a emergir, sendo agora pouco provável que desapareçam com o fim da pandemia.  

Muitos dos paradigmas sobre as possibilidades do trabalho remoto – colaboração em tempo real ou poupança de tempo e de emissões – aceleraram-se com esta crise.

Paula Panarra, Microsoft Portugal

  "Com as devidas diferenças, poderíamos dizer que, tal como quem se habituou a separar o lixo não deixa de o fazer, também estes comportamentos vão passar a integrar as dinâmicas das empresas e organizações", diz a CTO do CEiiA. São bons motivos para Paula Panarra acreditar que a produtividade no teletrabalho está não só assegurada, como veio para ficar. "Não será a única forma, nem sequer a principal. Creio antes num modelo híbrido com ganhos na colaboração, no ambiente e até na qualidade de vida para todos nós." Com famílias, empresas, negócios ou cidades a ajustarem-se aos tempos de pandemia, também o formato da 3.ª edição do Portugal Mobi Summit não poderia deixar de ser diferente. Ao longo dos próximos meses haverá mais debates, sessões, entrevistas ou webinars, tudo a acontecer no digital. Será assim até aos dias 8 e 9 de outubro, quando a maior cimeira de mobilidade do país entrar nas instalações da Nova SBE, em Carcavelos.

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