ACAP diz que rede de carregamento elétrico é claramente insuficiente

2020
19-11-2020

Setor automóvel enfrenta novas regras de emissões e sofre quebra de 36% nas vendas. A aposta nos elétricos não está a ser compensada pelo investimento público na rede de carregamento, acusa a ACAP em mais uma sessão Portugal Mobi Summit.

Pressionada, desde há mais de uma década, pelas metas do clima e, agora, pelo furacão da pandemia, a indústria automóvel enfrenta outro teste. Ao mesmo tempo que vive as ondas de choque da quebra de 25% nas vendas pós-covid, está sujeita a novos limites de emissões, impostos por Bruxelas, que acarretam multas pesadas já em 2021 em caso de incumprimento. Em Portugal a quebra foi mais acentuada e chegou aos 36% em outubro. Este foi o ponto de partida de mais uma sessão Portugal Mobi Summit que juntou, esta quinta-feira, Hélder Pedro, secretário-geral da ACAP, Luís Reis, administrador do CEiiA para a área da mobilidade, e Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero. Pelo lado da indústria, Hélder Pedro diz que o setor está preparado para enfrentar o que aí vem e irá cumprir o que for estipulado. "Fomos o setor que mais emissões reduziu: entre 2005 e 2020 baixámos as emissões em 45% e somos o setor europeu que mais investiu em Investigação & Desenvolvimento", justifica o secretário-geral da ACAP. Mas deixa um recado: "não basta a indústria fazer este esforço, que implica custos muito elevados, nomeadamente numa oferta muito diversificada de veículos, se os poderes públicos não fizerem a sua parte". Hélder Pedro refere-se, em concreto, ao atraso na expansão da rede pública de carregamento elétrico, à infraestrutura de conectividade e à legislação para viabilizar a condução autónoma, que tarda em ganhar forma no espaço europeu, apesar de a tecnologia já estar disponível. Para o porta-voz do comércio automóvel, a rede de carregamento elétrico em Portugal neste momento é "claramente insuficiente". Há "um longo caminho a percorrer nesta matéria", diz, enfatizando que não se pode esperar que a indústria invista para ter oferta de veículos sustentáveis e depois não se criem as condições para que os consumidores adiram, por falta de condições de abastecimento. Desigualdade social no acesso à tecnologia Hélder Pedro chama ainda a atenção para as desigualdades que a falta de investimento público nesta infraestrutura pode criar a nível regional e entre grupos sociais. "Temos de garantir que todos os cidadãos têm acesso à tecnologia, independentemente da sua condição social", observa. Isto, porque quem não vive em condomíninios e não tem garagem própria fica numa situação de dependência para o abastecimento. A este respeito, também Francisco Ferreira, da Associação Zero, faz eco das queixas dos seus associados que "estão interessados em comprar 100% elétricos, mas acabam por recuar a contragosto, porque não têm garagem e notam que os pontos públicos de carregamento são escassos e estão frequentemente ocupados e inacessíveis". Muito falta fazer também a nível europeu para atingir o objetivo estipulado que é atingir os 3,2 milhões de pontos de carregamento até 2030 no espaço comunitário, considera Hélder Pedro. Neste momento existe um grande desequilíbrio, pois quatro países concentram 75% dos postos de carregamento na Europa. São eles a Holanda, com 25%, a Alemanha (21%), a França (15%) e o Reino Unido (14%). E, segundo Hélder Pedro, "não parece existir uma estratégia clara para a criação de uma rede europeia de pontos de carregamento". Incentivos fiscais abaixo da média europeia Outro ponto que merece o consenso dos oradores deste debate é que os incentivos fiscais à aquisição de veículos elétricos deveriam ser mais expressivos, se queremos atingir as metas de descarbonização nos transportes. Vários países europeus incentivam de forma bem mais robusta a aquisição de veículos elétricos, com incentivos de 5 mil, 6 mil e 7 mil euros, contra os cerca de 3 mil euros praticados em Portugal para a compra de veículos ligeiros para particulares. Francisco Ferreira, da Associação Zero, considera que os incentivos poderiam ser mais expressisos, mas, salienta, "devem focar-se em concreto nos veículos 100% elétricos, porque os híbridos plug-in ainda têm emissões razoavelmente significativas". Ainda sobre a questão da fiscalidade, Luís Reis, do CEiiA chama a atenção para um momento não muito distante em que deixará de fazer sentido incentivar os veículos elétricos, na medida em que a redução do seu custo, aliada à poupança no combustível, aproxima o seu custo aos veículos convencionais. Nessa altura, Luís Reis considera que "fará sentido incentivar o uso do veículo elétrico e não a aquisição", nomeadamente através de ferramentas desenvolvidas pelo CEiiA, que permitem calcular as poupanças de CO2 obtidas pelos utilizadores de veículos sustentáveis e atribuir-lhes um valor, um crédito. Apesar dos constrangimentos assinalados, a verdade é que, em Portugal, a venda de veículos elétricos continua a crescer 41% há cinco meses consecutivos, contra a redução de 41,5% nos veículos a combustão registada desde a pandemia. E representa já uma quota de mercado de 12% nas vendas, o que coloca Portugal no quarto lugar da UE. Novos players ganham espaço no mercado Em jeito de balanço da evolução recente da indústria automóvel, o administrador do CEiiA lembrou que "estamos num momento transformacional" do ponto de vista tecnológico e estrutural. "Com as metas de descarbonização e a eletrificação abriu-se espaço para desenvolver várias soluções inovadoras e surgiram novos construtores na Europa e na Ásia que estão a disputar o mercado com os construtores convencionais". Luís Reis exemplificou com as vendas de veículos elétricos de 2019, mais de metade das quais de novos construtores como a Tesla e outras marcas asiáticas. "Não só estamos a assistir à entrada de novos playeres, como o setor está a passar de uma lógica de produto para uma lógica de serviço", disse. O responsável do CEiiA lembrou que "o setor automóvel tem um peso muito relevante no PIB português e que é importante continuar a inovar e a garantir que a produção tem mais incorporação de valor". Daí que, diz, seja preciso diversificar e pensar nos novos serviços urbanos que vão nascer e criar novos tipos de veículos, mais ágeis e flexíveis para satisfazer essas novas necessidades, como faz o centro de engenharia e desenvolvimento de produto CEiiA.

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