As soluções tecnológicas só se tornam inteligentes ao criarem oportunidades de negócio e ao saberem responder às diferentes necessidades das pessoas. Fica aqui o aviso dos especialistas que debateram a transição digital e as novas tendências de mobilidade.
Teletrabalho, ensino à distância, condução autónoma, bicicletas, scooters, carros elétricos ou fluxos de trânsito menos congestionados são tendências já a acontecer. Não serão necessários grandes dotes de adivinhação para perceber que essas são as transformações que vão entrar nas cidades nos próximos anos. A questão, talvez mais importante, a colocar é como é que todas essas novas realidades vão servir as populações dos centros urbanos e como é que poderão trazer novas oportunidades para a indústria e para a economia do país. Esses são os pontos centrais apontados pelos convidados do debate do Portugal Mobi Summit focado na transição digital e novas tendências de mobilidade.
"Não chega apenas injetar o digital nos processos, avisa Eduardo Ramos
, CEO da A-to-Be do grupo Brisa. Antes de disparar para todo o lado será preciso refletir como e com que objetivos estão a ser construídos sistemas e modelos de negócios. Um exemplo disso é o problema da última milha, que continua sem solução: "As deslocações do ponto A ao B podem até estar garantidas, mas isso de pouco vale se as ligações no meio dessa distância não são asseguradas pelo transporte público."
Daí a urgência em se planear os próximos passos, diz Diogo Santos, partner da Deloitte. E isso passa por ter em conta que há diferentes necessidades nesta equação. É o caso dos idosos, por exemplo, que em 25 anos, duplicaram a população e que precisam de respostas distintas. "Ou então das famílias de ou dos casais sem filhos", acrescenta o responsável pela área da mobilidade da Deloitte, revelando que 91% das famílias com crianças ainda possuem automóvel contra os 68% dos agregados sem filhos: "Significa isso que o transporte público ainda não dá resposta para além do "troço entre o destino de partida e de chegada".
A tecnologia será a chave para a mobilidade inteligente, mas sem "boas ideias, políticas eficazes ou literacia" não poderá avançar muito, diz, por seu turno Luís Reis, senior business manager de mobilidade do CEiiA: "É preciso trabalhar a partir das necessidades das pessoas, das empresas, saber identificar talentos e projetos válidos." Essa é uma etapa crucial para tirar o melhor partido das oportunidades que as tecnologias oferecem: "A eletrificação, a conectividade, os transportes partilhados têm de ser capazes de transformar a indústria e trazer novos operadores e novos fornecedores de tecnologia."
Em poucas palavras: "Temos de ser capazes de andar mais depressa", defende Gustavo Monteiro, administrador executivo da EDP Comercial. A velocidade é, aliás, determinante para dar resposta ao boom que se se espera já nos próximos anos dos veículos elétricos a circular na estrada: "Se em agosto e setembro já se atingiram recordes de vendas de 14%, vários estudos apontam para um crescimento 40 vezes maior nos próximos anos na Europa e, também em Portugal." É preciso acelerar, portanto, a rede de carregamento com os setores público e privado a coordenarem-se entre si para oferecer soluções que serviam as mais "diferentes necessidades" dos condutores e das empresas, conclui.