A inovação e a tecnologia, em particular, são centrais para tornar os sistemas de transporte público "resilientes" a qualquer tipo de impacto, defende a investigadora da Universidade de Hong Kong.
Apontado mundialmente como um modelo de mobilidade urbana, o sistema de transportes de Hong Kong conseguiu, ao longo das últimas décadas, o pleno ao manter a sustentabilidade ambiental, económica e social. É a ambição de muitas cidades do mundo, sobretudo agora, em que a Covid-19 tornou a sua viabilidade ainda mais complicada. Mas, até perante o confinamento, a rede de metro, de autocarros ou de comboios da região autónoma da China teve um desempenho "extraordinário". Esse é o exemplo que Becky Loo, investigadora da Universidade de Hong Kong, trouxe para a entrevista desta terça-feira do Portugal Mobi Summit.
Mesmo nos piores dias da pandemia, a taxa de ocupação dos transportes públicos nunca desceu para menos de metade dos índices registados antes do confinamento. Porque é que os habitantes de Hong Kong não tiveram medo de entrar no metro, nos elétricos ou nos autocarros, como aconteceu em quase todas as cidades do mundo? "Acredito que, de alguma forma, as inovações apresentadas pelos operadores de transporte público contribuíram para que os passageiros se sentissem confiantes", explica diretora do Instituto de Estudos de Transportes na Universidade de Hong Kong.
Brigadas de robôs a desinfetarem carruagens, autocarros e estações, limpeza automática das escadas rolantes e passagens pedonais, uso obrigatório de máscara desde o início, ou regras de circulação obrigatória foram e continuam a ser as soluções do setor para contrariar a quebra no número de passageiros.
Chama-se a isso "resiliência do transporte público", um conceito académico que se resume na capacidade em "absorver o impacto" de uma perturbação, eliminando-o ou mudando a sua direção. E a Covid-19 é um bom exemplo dessa disrupção: "Importa saber agora como é que os sistemas recuperam os passageiros ou mudam o foco para a micromobilidade, como tem acontecido em boa parte das cidades."
Qualquer que seja a estratégia, "a transformação" de um sistema de transporte estará sempre assente na tecnologia, ressalva Becky Loo: "A chave será invariavelmente o planeamento e a gestão entre a infraestrutura e os modos de transporte, usando sempre a digitalização para fazer da mobilidade urbana uma experiência integrada e sem perturbações."
Espinha dorsal da cidade
Se o sistema de Hong Kong está entre os mais eficazes, isso, segundo a investigadora, deve-se sobretudo ao planeamento, que começou há praticamente duas décadas, quando foram lançadas as primeiras políticas de transporte, antevendo já as necessidades da região para o futuro.
"Quando as pessoas apontam o modelo de Hong Kong como exemplar estão a referir-se tipicamente à rede de metro e de comboio", conhecida como Mass Transit Railway. Essa é a verdadeira "espinha dorsal" do modelo de transportes, cobrindo todas as ligações-chave da região e assegurando 5,6 milhões de viagens todos os dias. É praticamente metade dos passageiros que usam os transportes públicos de Hong Kong, com um total de 12,6 milhões de utentes/dia.
A eficiência do sistema não está unicamente dependente da rede de metro, mas também na variedade de modos de transporte que asseguram as necessidades locais e carências mais específicas. Mas, se Hong Kong tem uma oferta abundante e diversificada, deve-se sobretudo à sua elevada densidade populacional: "Há sempre um nicho em determinadas áreas para cada um dos modos, como são os casos das bicicletas e das trotinetes elétricas ou até de soluções como os veículos autónomos."
Basta olhar, aliás, para a rede dos icónicos elétricos de Hong Kong para perceber que não se destinam às massas. Com 40 quilómetros de extensão e 200 mil passageiros por dia, contrastam com a rede de metro que se estende por 2500 quilómetros de linhas ramificadas para cobrir toda a cidade.
O equilíbrio de cada cidade
Tendo encontrado o equilíbrio financeiro e ambiental, resta perceber se o modelo de Hong Kong pode ser replicado pelo mundo. "Poder, até pode, mas como geografa que sou, não acredito em modelos universais", diz Becky Loo, advertindo para a importância dos "contextos específicos" de cada cidade.
São as culturas e sobretudo as geografias que terão de moldar os sistemas de transporte adaptados a diferentes realidades, desde frentes marítimas, paisagens montanhosas ou topologias planas: "Cada lugar tem uma história que será a base para construir um sistema sustentável e funcional do ponto de vista económico, social e ambiental."
Os bons exemplos podem e devem ser replicados, diz a investigadora, desde que se tenham em conta as "realidades locais". O objetivo, esse, será sempre o mesmo para qualquer cidade: "O novo paradigma da mobilidade a perseguir é o transporte como uma experiência suave e contínua."
O que quer isto dizer? Nada mais do que sair de casa, apanhar logo o autocarro, descer na estação fluvial, atravessar o rio, sentar na carruagem do metro e chegar, por fim, ao escritório: "Esse é o modelo que nos proporciona uma viagem tranquila, agradável e sem qualquer perturbação."
Becky Loo foi a convidada da entrevista do Portugal Mobi Summit, conduzida pelo jornalista Paulo Tavares e pelo urbanista Charles Landry.
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