A inovação na mobilidade elétrica avança com apps que permitem carregar a partir do telemóvel, fazer a gestão inteligente do carregamento nos edifícios e alimentar a rede com o próprio carro.
A mobilidade elétrica e a digitalização estão condenadas a entender-se. Não só os veículos elétricos mais modernos têm uma forte componente de interconetividade digital, como a própria experiência do carregamento promete tornar-se inteiramente digital. Este foi, de resto, o tema que animou a sessão IX Portugal Mobi Summit desta quinta-feira, dedicada à Inovação Digital no Carregamento Elétrico.Exemplo disso mesmo é a nova plataforma da EVIO, já lançada para o mercado empresarial e prestes a ser apresentada ao segmento dos particulares. "Com a nossa appé possível carregar os veículos em qualquer país de forma desmaterializada, ou seja, não é necessário um cartão físico, pode ser uma experiência inteiramente digital, através de um smartphone", explica o CEO da startup, Carlos Almeida, que participou na sessão onde estiveram também presentes Gonçalo Castelo Branco, diretor de Smart Mobility da EDP Comercial e Hugo Pereira, chefe de Estratégia e Marketing da EVBox. A simplificação do carregamento e, sobretudo, a transparência do procedimento relativamente ao custo de cada carregamento é uma das áreas que ainda carece de melhoramento, uma vez que, até ao momento, o utilizador não consegue aceder na hora ao custo da operação que está a realizar, algo que será brevemente resolvido, precisamente por via da inovação digital.Pela EDP Comercial, Gonçalo Castelo Branco lembra que o propósito de todas estas evoluções tecnológicas é a descarbonização dos transportes. "A eletrificação tem um papel muito importante neste setor, tendo em conta que os transportes representam 30% do consumo europeu e 25 das emissões globais de co2", contextualiza o diretor de smart mobility. E, acrescenta, citando um estudo recente da Transport &Environment, que "a utilização de um veículo elétrico no conjunto do seu ciclo de vida, permite reduzir em cerca de três vezes as emissões de co2, face a um veículo a combustão".
"Quanto mais energias renováveis estiverem na fonte de produção, mais isto será verdade, como é, aliás, o caso de Portugal", sustentou. Nesta matéria, a União Europeia antecipou para 2025 o objetivo de ter 80% de energias renováveis, sendo que a EDP traçou a meta de chegar a 90% de energia a partir de fontes renováveis já em 2030, especificou Gonçalo Castelo Branco.Sobre a digitalização do processo de carregamento em concreto, o responsável referiu que esta vai passar também muito pela integração na rede da produção descentralizada, quer por via dos painéis solares, quer por via dos próprios proprietários de veículos elétricos que poderão alimentar a rede, quando os seus carros estão parados.80% dos utilizadores carrega em casa ou no trabalhoMesmo que a grande maioria dos utilizadores de veículos elétricos faça o carregamento em casa ou no trabalho, só poderá haver uma verdadeira massificação da mobilidade elétrica com um maior investimento da rede pública, concordam os oradores deste debate. "Entre 70% a 80% do carregamento vai ser em casa ou no trabalho, mas o investimento na rede pública de carregamento é cada vez mais importante", salientou Gonçalo Castelo Branco.É um esforço que está em marcha a nível europeu, com a meta de chegar a um milhão de pontos de carregamento nas estradas europeias já em 2025. Em Portugal, e no que diz respeito à EDP, a elétrica cumpriu o objetivo de fechar o ano de 2020 com 700 pontos de carregamento contratados. E anunciou recentemente a instalação de 34 postos de carregamento rápido e ultrarrápido em autoestradas, em parceria com a Brisa e as gasolineiras BP e Repsol, recordou o seu diretor para a área da mobilidade inteligente.Este investimento permite minimizar o problema das assimetrias regionais na cobertura da rede de carregamento público. É um problema real, uma vez que as operadores têm maior rentabilidade em instalar-se nos grandes centros urbanos onde há mais utilizadores, preterindo as zonas menos povoadas do interior. Nesse sentido, Carlos Almeida, sustenta que a aplicação da EVIO também permite alargar a rede, ao possibilitar que privados como edificios de escritórios com parques de estacionamento com pontos de carregamento possam rentabilizar essa infraestrutura a outros utilizadores, por exemplo, em períodos noturnos ou aos fins de semana, quando não estão a ser usados pelos seus trabalhadores. A aplicação permite essa utilização, com vantagens para as empresas, que podem cobrar por esse carregamento, e para os particulares, que alargam as suas opções de carregamento quando não dispõem de garagem ou condomínio privado.Gestão inteligente nos condomíniosOutra área em que a digitalização promete melhorar a mobilidade elétrica é ao facilitar a gestão inteligente do carregamento, refere Carlos Almeida. E exemplifica com um parque de estacionamento de um condomínio de escritórios. Pelo facto de a maioria dos funcionários chegarem às 9h, isso não significa que a rede tenha de alimentar todos os veículos ao mesmo tempo, podendo fazer uma gestão inteligente do tempo em que cada veículo está a carregar. Tudo isto é possível de gerir com tecnologia.
"A evolução tecnológica na área da mobilidade elétrica é extraordinária nos últimos seis anos", considera Hugo Pereira, o chefe de Estratégia e Marketing da EVBox. "Hoje é muito mais fácil chegar da Holanda, onde vivo, a Portugal e carregar em postos publicos, a inovação melhorou bastante", afiança. Outra área para a qual Hugo Pereira prevê grandes evoluções é no carregamento inteligente, nomeadamente, na possibilidade de a bateria do carro poder alimentar a rede. Hugo Pereira acredita igualmente que a introdução dos carros autónomos vai levar a inovação para outro patamar.A sessão IX do Portugal Mobi Summit, moderada pelo editor do Motor24, Jorge Flores, ocorre num momento em que os veículos elétricos representaram 13% do total de vendas em 2020, com uma tendência sempre crescente, que se acentuou em dezembro, atingindo uma quota de mercado de 22%. Números que colocam Portugal no Top 5 europeu dos países onde mais se vendem veículos elétricos em percentagem das vendas totais.