
É preciso agir agora para não trazer o automóvel de volta

Os convidados da segunda sessão do Portugal Mobi Summit reconhecem que a pandemia não pode ser pretexto para travar as apostas na eletrificação da mobilidade, no transporte público e na micromobilidade. A viagem para a transição energética está só no início, avisam.
Nunca como agora a mobilidade mexeu tanto com as dinâmicas das cidades. Há menos trânsito nas ruas e tanto a bicicleta como os circuitos pedonais ganharam uma nova energia. Em contrapartida, o medo da covid-19 esvaziou os transportes públicos e o teletrabalho abriu o apetite para agarrar no automóvel e levá-lo nas deslocações menos regulares ao escritório.
Este é o cenário da pós-pandemia que pôs os convidados da segunda sessão do Portugal Mobi Summit a olhar para o futuro da mobilidade e da transição energética. Os tempos que se seguem são de muita incerteza. Essa é, aliás, a única certeza de Eduardo Pinheiro, secretário de Estado da Mobilidade, de Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, de António Coutinho, administrador da EDP Comercial e de Manuel Melo Ramos, CEO da Brisa Concessão Rodoviária.
Todos eles não se arriscam em futurologias. Até porque ainda é cedo para perceber se as mudanças vieram para ficar ou vão desaparecer quando a covid-19 deixar de ser uma ameaça. "Num momento de pandemia há, antes de tudo, uma crise de saúde pública e, portanto, há um conjunto de constrangimentos que nos levam a ter receio e que trazem grandes desafios à mobilidade, nomeadamente o menor uso dos transportes públicos", avisa Eduardo Pinheiro.
"Este é o momento para promover os modos sustentáveis, como estamos a fazer, mas os municípios têm papel determinante, como gestores do território, para que tal aconteça."
Eduardo Pinheiro, Secretário de Estado da Mobilidade
O certo é que, até ao final de 2019, tanto a "crescente" utilização dos transportes públicos, como a mobilidade partilhada pareciam tendências "sem retorno", diz Manuel Melo Ramos. Mas nesta primeira fase de retorno à normalidade estão "bastante em causa", teme o CEO da Brisa Concessão Rodoviária, lembrando ainda o peso do teletrabalho no equilíbrio desta nova equação: "Se, por um lado, os congestionamentos em hora de ponta poderão diminuir com as deslocações mais esporádicas ao escritório, por outro, abre-se aqui uma maior apetência para o transporte individual, pelo menos nesta fase inicial."
Processos lentos

Daí a urgência de agir rápido, não apenas na micromobilidade, mas continuando igualmente a encarar o transporte público como "espinha dorsal" da mobilidade nas cidades. "Este é um momento importante, devemos promover os modos sustentáveis, como estamos a fazer, mas a este nível os municípios têm um papel determinante, como gestores do território, para que tal aconteça", defende o secretário de Estado.
Fazer acontecer, no entanto, é um processo demorado, adverte o presidente da Câmara de Cascais. E não é apenas pelas transformações de ordem cultural. É sobretudo por um conjunto de "interesses instalados" que não é fácil de "furar" em Portugal, no geral, e em Cascais, em particular. "Temos vindo a ganhar batalha a batalha com muita persistência e resiliência, diria mesmo com muita teimosia."
"Em Portugal, e em Cascais também, há um conjunto de interesses instalados que, por vezes, não é fácil de furar. Mas temos vindo a ganhar, batalha a batalha, com muita teimosia."
Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais
Essa foi a "determinação" não apenas para investir nas bicicletas, mas também para alterar a lógica dos transportes públicos que, desde janeiro, são gratuitos para quem vive, trabalha ou estuda no concelho. A transformação – adverte Carlos Carreiras – não pode ficar somente pelos parâmetros energéticos sustentáveis, mas deverá procurar, além do conforto e dos preços acessíveis, ser flexível o suficiente para cobrir tanto as zonas de maior como de menor procura.
Público versus privado

Neste puzzle, há ainda uma grande tendência para separar o transporte público do privado, adverte o administrador da EDP Comercial. É essa dicotomia que depois faz esquecer as outras peças que surgiram, entretanto, no mercado, ganhando uma enorme importância na mobilidade urbana. "É interessante perspetivar que, além do TVDE, apareceram nos últimos quatro, cinco anos, só na cidade de Lisboa, mais de 20 operadores de micromobilidade."
Esse é o fenómeno que hoje retira qualquer sentido à fronteira entre público versus privado, diz António Coutinho, defendendo uma visão integrada de todos os modos de transporte para facilitar a mobilidade. "O cidadão é que tem de escolher, tem de ter flexibilidade e qualidade de serviço. Ele é que tem de fazer essa escolha. Isso também é um grande desafio para os operadores de transporte público."
A eletrificação da mobilidade terá também de acelerar. Esse é, aliás, um dos principais motores da transição energética, que permitirá eliminar 25% das emissões de dióxido de carbono. E nos transportes públicos a viagem vai só no princípio, avisa o administrador da EDP Comercial, ressalvando, todavia, o "bom exemplo" de Cascais. "É importante frisar que, no mundo, 99% dos autocarros elétricos estão na China e apenas 0,5% na Europa – é um valor extremamente reduzido. Temos de rebalancear isto."
"É importante frisar que, no mundo, 99% dos autocarros elétricos estão na China e apenas 0,5% na Europa – é um valor extremamente reduzido. Temos de rebalancear isto."
António Coutinho, Administrador da EDP Comercial
Para alcançar a descarbonização, mais do que o número de veículos, o que importa é o número de quilómetros percorridos, relembra António Coutinho, para destacar a importância de adotar a mobilidade urbana sem emissões. "Este é um processo que só pode ser bem-sucedido se afastarmos a visão binária entre público e privado e olharmos para a mobilidade de uma forma integrada."
É quando se foca a atenção no panorama global que se percebe que a transição energética, pela sua natureza, será sempre um processo "muito mais lento" do que a transformação digital. "Em Portugal, só 6% da venda de novos veículos foram elétricos", conta o administrador da EDP Comercial, fazendo ver que, ainda assim, o país está no top 5 deste campeonato europeu.
É por isso que António Coutinho coloca uma grande ênfase no esforço público para impulsionar a aquisição de viaturas elétricas, promover o abate dos veículos térmicos e a renovação da frota dos autocarros, apoiar o alargamento da rede de carregamentos ou o investimento em painéis solares.
O impulso das políticas públicas

O esforço público tem sido feito, salienta o secretário de Estado da Mobilidade, relembrando a eletrificação da frota da Transtejo que, entre 2022 e 2024, começará a navegar no Tejo, ou os quatro milhões de euros colocados, em 2020, no fundo ambiental para estimular a compra de veículos elétricos.
A medida, explica Eduardo Pinheiro, será sempre acompanhada de outras políticas como, por exemplo, a instalação de mais de 600 postos pelo país para incentivar o mercado a continuar a estender esta rede. "Foi dado um passo importante, que permitiu também a todos os municípios terem, no mínimo, um posto de carregamento."
Ainda assim e, apesar de a infraestrutura estar a expandir-se "bastante", não cresce ao ritmo de venda dos veículos, defende o administrador da EDP Comercial, alertando para a urgência de se "alinhar" estas duas velocidades para não travar o "crescimento potencial" dos elétricos.
"Se, por um lado, os congestionamentos em hora de ponta poderão diminuir com as deslocações mais esporádicas ao escritório, por outro, abre-se uma maior apetência para o transporte individual."
Manuel Melo Ramos, CEO da Brisa Concessão Rodoviária
No caso dos veículos elétricos, o carregamento far-se-á essencialmente em casa e no local de trabalho, explica Manuel Melo Ramos para explicar que esse foi o ponto de partida para a Brisa montar a infraestrutura nas autoestradas. No entanto, há que ter em conta as necessidades relacionadas com as longas distâncias e aí é que o esforço faz sentido. "Temos hoje 17 postos de carregamento e estamos a trabalhar com vários parceiros da indústria com o intuito de melhorar a oferta."
Esse é o empenho que se terá de colocar na rede de carregamentos para permitir aos condutores de veículos elétricos percorrer as autoestradas sem sentir aquilo que os anglo-saxónicos chamam de range anxiety, stress relacionado com o receio de ficar a meio do caminho com a bateria descarregada. "Em breve, apresentaremos um plano detalhado", promete o CEO da Brisa Concessão Rodoviária, reconhecendo que essa é uma das principais vias para impulsionar a eletrificação da frota nacional e, consequentemente, contribuir para a descarbonização.
Manuel Melo Ramos, da Brisa (à esquerda), António Coutinho, da EDP (ao centro), Carlos Carreiras, da Câmara de Cascais (à direita) e o secretário de Estado Eduardo Pinheiro (em baixo) participaram no debate conduzido pelo jornalista Paulo Tavares.