"Estão criadas as condições para a um grande aumento da micromobilidade"

2020
25-05-2020

Bicicletas e circuitos pedonais são, com o distanciamento social, as soluções que asseguram a mobilidade urbana e permitem a retoma da economia. Este é o impulso que os autarcas precisavam para limitar a circulação do carro, avisa John Siraut, o economista inglês convidado da segunda entrevista PMS 2020.

  Que a mobilidade das cidades não será igual quando sairmos da pandemia, é algo que não provocará muitas dúvidas. A questão é saber o que vai mudar. Com o distanciamento social, o transporte público é, por estes dias, o último recurso. E o carro particular, esse, não faz parte das estratégias da maioria das capitais europeias. "Estão criadas as condições para a um grande aumento da micromobilidade", diz John Siraut, o especialista inglês que se dedica a estudar os impactos sociais e económicos das políticas públicas de transporte. Ele foi esta semana o convidado da entrevista conduzida Paulo Tavares e Charles Landry, os curadores do Portugal Mobi Summit. Bicicletas e trotinetes elétricas é o que já se vai vendo com frequência nos centros urbanos: "Aqui em Londres, por exemplo, as principais estradas foram fechadas, criando condições para que as pessoas possam circular." Essa é a resposta que Siraut diz estar a acontecer em boa parte das cidades da Europa como forma de evitar a "corrida" ao automóvel particular. Remover o espaço para carros e providenciar melhores condições para ciclistas e peões é a solução que as autarquias encontraram para a cidade continuar a mexer-se. Essa já era, aliás, a estratégia de "muitos presidentes de câmaras municipais à volta do mundo" para combater a poluição atmosférica nas cidades. E que, agora, saiu reforçada com a necessidade de proteger as populações da Covid-19: "Com a pandemia, o que vimos foi precisamente uma significativa melhoria da qualidade do ar em cidades muito problemáticas." É também o caso de Londres, explica o economista, dando o exemplo que lhe está mais próximo: "Nestes meses, conseguimos ver o horizonte e o skyline com muito mais nitidez. Só agora, com este céu mais límpido, nos demos verdadeiramente conta de como vivíamos asfixiados."

A retoma da economia

[caption id="attachment_5450" align="alignnone" width="619"]Paulo Spranger/Global Imagens Paulo Spranger/Global Imagens[/caption] Esse é o impulso que os políticos vão querer escalar para mostrar que o regresso ao passado não é a alternativa das cidades que ambicionam atingir a sustentabilidade. "Ninguém quer voltar à normalidade se a normalidade era o que tínhamos antes." E, como a pressão para retomar a economia aumenta de dia para dia, a micromobilidade será a única forma de assegurar também o distanciamento social: "Cada cidade encontrará as suas estratégias, mas a maioria dos autarcas tem insistido nessa necessidade de aproveitar os benefícios ganhos com a melhoria da qualidade do ar para ir mais longe, ou pelo menos, manter aquilo que foi conquistado." Aumentar a infraestrutura para os modos de transporte mais leves e, ao mesmo tempo, limitar a circulação automóvel é o desafio que as cidades enfrentam, defende o especialista. "As trotinetes elétricas que foram proibidas em muitas partes dos centros urbanos, voltaram por exemplo a algumas ruas do Reino Unido", exemplifica Siraut para ilustrar o regresso da micromobilidade nas cidades. É a resposta para atingir o nível de mobilidade que as economias precisam sem comprometer o tal distanciamento social que a pandemia impôs nestes últimos meses: "Isso sem dúvida impulsionará o uso da bicicleta, da trotinete e da circulação pedonal", defende.

"Só agora, com este céu mais límpido, nos demos conta de como vivíamos asfixiados"

O que se segue é algo que, em bom rigor, não é possível prever, mas o economista britânico diz depositar "muita confiança" nessas novas tendências que se afirmaram com as necessidades criadas pela pandemia : "A minha esperança é que as pessoas vejam as vantagens dessa mobilidade e desistam do carro." Só que, antes disso, os centros urbanos têm ainda um desafio pela frente – planear as cidades, centrando as políticas urbanísticas em melhores acessibilidades para peões, bicicletas e trotinetes: "Do que precisamos é de mais espaço para pessoas e não para veículos." Muitas das vias que agora se abriram para a micromobilidade foram conquistadas à custa dos carros que saíram das estradas, avisa o especialista. O desafio seguinte é retomar a economia com a abertura de lojas, cafés, restaurantes, praças e esplanadas que garantam a segurança da saúde pública: "Há que começar a pensar em soluções que permitam aos ciclistas tomar conta das estradas urbanas para a mobilidade poder também regressar com a mesma eficiência."

Incertezas do transporte público

[caption id="attachment_5451" align="alignnone" width="590"]Rui Oliveira/ Global Imagens Rui Oliveira/ Global Imagens[/caption] O transporte público é que, no futuro mais imediato, poderá atravessar dias difíceis, avisa John Siraut. Mais uma vez é o distanciamento social a ditar as regras. Os autocarros, os comboios ou o metro terão de aumentar "substancialmente" os lugares disponíveis para resguardar os passageiros dos perigos do contágio do novo coronavírus. " O grande problema é que esse investimento não compensará nem de longe os custos do investimento se acolherem somente 10% dos utentes que costumavam transportar." Essa é grande fragilidade do setor que, neste momento, enfrenta muitas incertezas sobre a capacidade para resistir às medidas de distanciamento social: "Quanto mais tempo durarem as políticas de saúde pública, mais complicada será a recuperação", avisa o economista, lembrando os milhares de milhões em receitas que o transporte público perde todas as semanas em cidades como Nova Iorque ou Londres.

"Quanto mais tempo durar o distanciamento social, mais difícil será a recuperação do transporte público"

São prejuízos que se acumulam a cada dia que passa e que, não só poderão comprometer a oferta na fase pós-pandémica, como implicar o resgate do setor por parte dos governos: "Espero que, com o tempo, as pessoas possam regressar aos modos de transporte coletivo e que as cidades reencontrem as suas estratégias mais centradas na sustentabilidade e menos orientadas para o automóvel."

A mobilidade comunitária

[caption id="attachment_5452" align="alignnone" width="628"] Rui Manuel Ferreira / Global Imagens[/caption] Se o regresso massivo ao transporte público continua por enquanto, adiado, vida comunitária parece estar de volta. Poderá até parecer um paradoxo, mas o distanciamento social aproximou bairros e pequenas comunidades urbanas. Com a mobilidade limitada pelo confinamento, as cidades viraram-se para dentro: "O que vimos um pouco por toda a Europa e também nos Estados Unidos foi o reacender do espírito comunitário". Em Lisboa, em Roma, em Madrid, em Paris ou, em muitas mais cidades populosas, a vivência de bairro refletiu-se não apenas na entreajuda dos vizinhos como também no reativar do comércio local. Mas a questão dos impactos da mobilidade digital não são para menosprezar, adverte Siraut: "A questão que também se coloca é a de saber se, no regresso à normalidade, vão as pessoas continuar a consumir no comércio de proximidade ou comprar através do online." A resposta ditará a natureza desses bairros. Ou tornam-se dormitórios ou, então, as suas lojas transformam-se em "pontos de encontro" para a comunidade, conclui o especialista.    

John Siraut

É economista especializado em impactos económicos e sociais mais amplos das políticas públicas de transportes. Boa parte do seu trabalho está centrado na análise dos investimentos no campo da mobilidade como, por exemplo, autoestradas, aeroportos, estradas, portos, estacionamento ou ferrovias. Atualmente, é diretor da Econmics Jacob, uma empresa global com sede em Dalas, no Texas, com uma vasta área de atividades, desde planeamento urbano, smart cities, gestão de recursos hídricos, energias renováveis ou infraestruturas ligadas mobilidade sustentável.

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