Criar um mercado local de carbono com uma app que incentiva a mobilidade limpa, construir uma aeronave movida a hidrogénio e colocar satélites no espaço são apenas alguns dos muitos projetos em curso no CEiiA, revela a sua diretora técnica.
Descarbonizar a mobilidade, alcançar o espaço e sondar o fundo dos oceanos. É neste triângulo de grandes desígnios tecnológicos que se move Helena Silva, a CTO do CEiiA, o centro de engenharia que está ligado a alguns dos projetos mais ousados na área da mobilidade inteligente.
O projeto "mais sexy", reconhece Helena Silva, é a plataforma AYR, desenhada para incentivar o uso de transportes não poluentes e apresentada em Nova Iorque, com sucesso, em 2019. Consiste em integrar numa app a informação sobre a utilização de scooters elétricas, bicicletas e trotinetes, quantificar as emissões de CO2 poupadas por cada utilizador e atribuir-lhes um valor, um crédito, que pode ser trocado por serviços acordados com municípios, como entradas em museus municipais ou espetáculos, entre outras possibilidades.
Cascais e Matosinhos são os municípios que já estão a usar a plataforma, a título de experiência-piloto. Agora, o próximo passo é desenvolver um ecossistema que permita integrar a informação recolhida noutros serviços de mobilidade, como os próprios transportes públicos, explicou a diretora técnica.
"O objetivo é criar um mercado local de carbono em que cada utilizador pode ser um ator no processo de descarbonização da cidade e em que os créditos de poupança de CO2 funcionem como uma moeda local", resume Helena Silva.
Mas a ambição é ir ainda mais longe: "No futuro, este projeto leva-nos aos fundos locais de carbono." Ou seja, "depois de termos o ecossistema criado para possibilitar a quantificação e a transação dos créditos, evoluiremos para um sistema em que as entidades mais poluentes se tornam "tomadores de AYR" e têm de investir na cidade em projetos que tragam benefícios aos residentes".
Por muito futurista que pareça, a plataforma AYR já está a fazer o seu caminho nos Estados Unidos, onde o CEiiA tem um parceiro local, e no Brasil, nos estados de Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, onde tudo começou através de uma parceria com uma empresa de scooters elétricas partilhadas, chegando, agora, a manifestação de interesse da parte do Estado.
A era da mobilidade urbana aérea
Porque "o foco do CEiiA está sempre no futuro", o centro de engenharia e desenvolvimento de produto está a antecipar, também, um crescimento de novos tipos de mobilidade aérea. "Acreditamos que o futuro da mobililidade não passa só pela mobilidade horizontal, mas vai haver um mercado cada vez maior para a urban air mobility", seja para viagens curtas, entregas de encomendas ou serviços de assistência médica, prevê Helena Silva, que não desiste de criar um carro voador.
Já há parcerias em helicópteros. Mas, neste domínio, o projeto mais emblemático - que foi oficialmente apresentado nesta semana em Évora - é a aeronave ATL, para voos domésticos, desenvolvida em parceria com a brasileira Desaer e que vai ser construída de raiz no Alentejo. "É uma aeronave de nova geração, com uma tecnologia avançada neutra em carbono, que vai ser preparada para poder voar com hidrogénio verde." Por outro lado, "é muito fléxível, pois tanto pode servir para o transporte de pessoas como de carga, sendo que essa alteração também é rápida de fazer", explica.
"Este vai ser um mercado muito interessante nos próximos anos, pois estimamos que as areonaves do género que estão a operar chegam ao fim da sua vida útil daqui até 20 anos e vão ter de ser substituídas." É por isso que o projeto arranca ainda neste ano, com um investimento previsto de 20 milhões de euros, uma parte de investimento próprio, outra de fundos comunitários. A nova fábrica insere-se, não por acaso, no cluster aeronáutico situado no triângulo Évora, Ponte-de Sor e Beja, que conta com aeroporto. Helena Silva defende que se trata de um projeto a cinco anos, em que o desafio é conseguir custos de operação mais baixos para tornar esta aeronave algo de diferenciador no mercado.
Fazer a diferença a partir de Portugal
Conseguir fazer a diferença a partir de Portugal, com recurso à massa cinzenta nacional, é, de resto, o que anima a "ambiciosa equipa" de cerca de 300 engenheiros do centro de engenharia e desenvolvimento de produto, sediado em Matosinhos, admite.
É esse mesmo espírito que está também a conduzir o CEiiA para o espaço. "Antes, o espaço era só terreno da NASA, mas, desde o Elon Musk, abriu-se uma porta para novos entrantes e identificámos aqui uma oportunidade para desenvolver nova tecnologia, nomeadamente no setor das comunicações."
A equipa está a trabalhar em parcerias para desenvolver um microssatélite e lançá-lo já em 2021, a partir dos Açores, avançou a responsável.
Curiosamente, é lá do alto, com o contributo do satélite espacial, que o CEiiA espera receber o sinal necessário para entrar na exploração dos oceanos, outro dos seus grandes desígnios. "Observatório do Atlântico" é o nome do projeto, que visa explorar o mar profundo, e que "nunca poderá ser desenvolvido sem o contributo da tecnologia espacial", explica. Porquê? Helena Silva acredita que o potencial dos satélites para o desenvolvimento das comunicações é crucial para conhecermos melhor os oceanos. E como? Com veículos autónomos de superfície, por exemplo, munidos com sondas muito potentes, para melhor monitorizar os fundos marinhos ou as barragens ao nível, por exemplo, da poluição.
Com Portugal a negociar a extensão da sua plataforma continental submarina, "isto traz desafios enormes na área da defesa", observa. Assim se vê que o espaço e os oceanos estão mais ligados do que se pensa e que neste mundo não há fronteiras. "Vemos a mobilidade sem fronteiras até ao espaço e o fundo do mar", sintetiza Helena Silva, uma engenheira que sonha sempre mais além.