Há 20 anos, o alcaide proibiu o automóvel na cidade galega. Hoje, 72% das deslocações são feitas a pé ou de bicicleta e as crianças vão sozinhas para a escola, conta o autarca espanhol, que foi hoje o convidado da entrevista do Portugal Mobi Summit.
Em Pontevedra, o automóvel não entra, a menos que seja para assegurar um serviço essencial à comunidade. É uma mudança radical, que em nada se compara com os 150 mil carros que, há 20 anos, entravam e saiam da cidade galega.
Este é o projeto com que Miguel Anxo Lores arrancou quando, em 1999, assumiu o cargo de alcaide da cidade. Foi um percurso de grandes transformações, que recordou na entrevista do Portugal Mobi Summit, nas vésperas de participar em mais uma tertúlia na Brasileira do Chiado, em Lisboa.
Amanhã, pelas 18h00, o autarca estará sentado na mesa do café com outros especialistas para debater o trânsito em Lisboa no pós-covid-19 e o caminho que poderá também fazer para vir a ser uma cidade sem carros. A conversa será transmitida em direto na página de Facebook da Brasileira em
https://www.facebook.com/AbrasileiraDoChiado/.
Retirar os automóveis de circulação foi o ponto central da sua estratégia para reconquistar o espaço público e trazer para a rua os residentes, especialmente as crianças, os idosos e a população com mobilidade reduzida, explica o autarca: "Decidimos inverter a tendência. Colocámos as pessoas em primeiro lugar e o carro privado em último – atrás do peão, do ciclista, do motociclista, do transporte público e das cargas e descargas de mercadorias."
Logo no primeiro ano do mandato, a cidade, hoje com 80 mil habitantes, começou a mudar. Os carros foram expulsos do centro histórico e, no seu lugar, foram surgindo, nos anos seguintes, passeios e áreas pedonais, trajetos escolares e ainda estacionamento subterrâneo para libertar as ruas dos automóveis.
Reconquistar o espaço público
A interdição foi depois estendida a quase todo o centro urbano: "Cerca de 60% a 70% da área da cidade ficou destinada ao espaço público e cerca de 20%, 30% aos carros. Isso foi o que mudou radicalmente a imagem de Pontevedra." A redução foi acompanhada com medidas de acalmia do trânsito, como a substituição de semáforos por rotundas ou redução da velocidade para 30 km/hora, em 2010, havendo agora zonas com limites de 20 km/hora e de 10 km/hora.
"Atualmente
, cerca de 72% das deslocações são asseguradas a pé ou de bicicleta", conta Anxo Lores, explicando que os restantes 28% são feitos com veículos motorizados. Para facilitar as deslocações pedonais, a cidade também desenvolveu o
Metrominuto: um mapa inspirado nas redes de metropolitano que mostra as rotas pedestres e o tempo que demoram a percorrer, bem como pontos de interesse ao longo do trajeto.
Os resultados deste conjunto de medidas colocaram Pontevedra sob os holofotes internacionais: zero mortes no trânsito desde 2011, redução de 67% nas emissões de CO2, vários gases tóxicos, como dióxido de nitrogénio, dióxido de enxofre e ozono troposférico com valores abaixo dos índices recomendados pela OMS ou o aumento de 30% da receita comercial. A cidade tem também hoje mais 12 mil habitantes, tendo a população dos 0 aos 14 anos aumentado 14% devido à crescente procura por parte das famílias.
O trunfo para combater a covid-19
Em junho do ano passado, Miguel Anxo Lores conquistou o seu sexto mandato para governar a capital da província de Pontevedra até 2023. Aos velhos desafios, junta-se agora a contenção da pandemia, mas o autarca do Bloco Nacionalista Galego diz estar mais bem preparado do que a maioria das cidades. Com o investimento feito ao longo das últimas décadas no redesenho da mobilidade urbana, assegura que, em Pontevedra, é possível minimizar os impactos do confinamento e promover o distanciamento social de formas mais eficazes.
É que, se outras cidades estão, neste momento, numa corrida contra o tempo para ampliar ciclovias e áreas pedonais, a cidade galega já tem esse trabalho concluído há muitos anos, podendo o espaço público ser aproveitado pelos residentes sem perigo de aglomerações.
Há uma certa vantagem em a cidade ser pequena, reconhece o alcaide, explicando que bastam 20, 25 minutos para percorrer Pontevedra de uma ponta à outra. Mas não será a dimensão que impedirá outras cidades de fazerem o mesmo: "É perfeitamente possível selecionar uma área de cinco metros quadrados e implementar esta medida em quatro quilómetros quadrados." O importante – destaca o autarca – é reduzir ao mínimo a utilização do automóvel: "Os carros dão-se mal na cidade e bem na autoestrada, temos de levá-lo. por isso, para fora dos centros urbanos."
É condição essencial para a sobrevivência das cidades, defende Anxo Lores, advertindo também para as resistências que são precisas ultrapassar, como a oposição política e o próprio medo da população em perder o privilégio de andar de carro por onde mais lhe convém. "Quando restringimos a circulação automóvel, a maioria das pessoas usava o carro para andar 700 ou 300 metros."
Mas, agora, as crianças caminham sozinhas para a escola e "têm melhores notas". Os pais, por outro lado, já não têm os "stresses matinais" com o trânsito: "O mais importante é que as pessoas já não têm medo dos carros." Quem for ao final de tarde a Pontevedra – conta o alcaide – vai ver as pessoas nas ruas e os jovens nas esplanadas. Haverá, porventura, um carro ou outro a circular, admite Miguel Anxo Lores. "Mas vê-los a passar é como observar a chuva. Eles circulam devagarinho, não apitam, andam como se estivessem amestrados."