Pandemia vai baixar em 8% as emissões de CO2 este ano

2020
13-11-2020

Há o risco de emissões voltarem a subir. Positivo é que os custos das energias renováveis estão a baixar 10%, bem como o das baterias, que caíram 19%, o que abre a porta à massificação da mobilidade elétrica, refere estudo da Capgemini.

Estamos a viver a era de maior redução de emissões de gases com efeito de estufa desde a Segunda Guerra Mundial, em virtude da pandemia Covid-19. "As estimativas apontam para que neste ano de 2020 as emissões baixem de 7% a 8%", na sequência das restrições relacionadas com viagens e do forte abrandamento industrial. Mas há o risco de que este cenário seja "apenas temporário", como alerta Colette Lewioner, consultora senior para a área da Energia e Utilities da Capgemini, que acaba de lançar o seu estudo anual World Energy Markets Observatory (WEMO). "É provável que o nível das emissões volte a aumentar à medida que o mundo vá conseguindo ultrapassar esta situação", prevê a especialista. "Para nos mantermos no caminho certo a nível ambiental, teriam de ser tomadas medidas de contenção semelhantes às atuais todos os anos, durante os próximos 10 anos, o que é, naturalmente, inviável e indesejável", observa. É por isso que são realmente necessárias mudanças profundas para cumprir as metas traçadas no contexto das alterações climáticas. Alguns sinais positivos já estão em marcha, como destaca o estudo WEMO 2020. A produção de energia a partir de fontes renováveis e as tecnologias de armazenamento das baterias estão a evoluir rapidamente. "As energias renováveis já representam mais de metade do investimento mundial da produção de eletricidade". Esta tendência é mais acentuada nos países desenvolvidos do que nos países emergentes, que "continuam a construir centrais elétricas a carvão e a gás para satisfazer a procura crescente de eletricidade". Outro sinal positivo que se tem observado é que, graças à expansão do mercado das energias renováveis e aos avanços tecnológicos, "os custos das energias eólica e solar continuaram a diminuir mais de 10% em 2019, e esta redução mantém-se constante numa base mensal". As energias eólicas offshore parecem agora as mais promissoras, enquanto a aceitação das instalações onshore continua a apresentar problemas. Custo das baterias cai 19% com megaprojetos na Ásia Por outro lado, os custos das baterias para veículos elétricos e o armazenamento estacionário voltaram a registar uma redução de 19% em 2019 (baterias de iões de lítio), e foram anunciados projetos para a construção de 115 unidades fabris de grande dimensão, sendo 88 delas na China. Este mercado é dominado pelos players asiáticos, nomeadamente China, Japão e Coreia do Sul. Paralelamente, e a fim de recuperar a posição de liderança que perdeu no sector das baterias e dos painéis solares, a Europa decidiu avançar com investimentos muito importantes nas áreas do desenvolvimento do hidrogénio verde como fonte de descarbonização industrial e do armazenamento da eletricidade. Foi neste contexto que em julho deste ano, a Comissão Europeia decidiu investir entre 180 e 470 mil milhões de euros até 2050 de modo a transformar o hidrogénio verde numa importante componente do cabaz energético europeu, tendo como meta que este passe a representar 12% a 14% do mix global. Um setor em que Portugal se está a posicionar para ser um player de destaque. Estes avanços abrem a porta a uma nova era de expansão da mobilidade elétrica, que deixará gradualmente de ser um mercado de nicho para se tornar um mercado mais massificado. Riscos para a estabilidade da rede Mas, como aponta o estudo da WEMO, apresentado este mês, a rapidez do crescimento das energias renováveis também tem trazido instabilidade à rede de abastecimento. "Dada a percentagem crescente das fontes de energia renovável intermitente (eólica e solar) no cabaz energético, o equilíbrio da rede elétrica é mais difícil de assegurar e a segurança do abastecimento pode estar em risco". Esta situação foi, de resto, patente este ano, tanto na Europa como nos EUA. Em abril de 2020, durante o confinamento, a diminuição do consumo de eletricidade registada na Europa, aliada ao clima ensolarado e ventoso que se fez sentir, gerou um aumento substancial da percentagem (entre 60% a 70%) de eletricidade renovável na rede. A Alemanha e o Reino Unido quase que sofreram apagões virtuais, demonstrando que tanto as redes como a regulação não são adequadas para lidar com a elevada quantidade de energias renováveis na rede elétrica. Sobretudo se tivermos em conta que está previsto que este valor venha a aumentar até ao final desta década. Outro exemplo sucedeu em meados de agosto de 2020, durante uma onda de calor na California (EUA), onde se registaram falhas localizadas em áreas onde o fornecimento de energia depende em 33% da energia renovável, principalmente da energia solar. Esta situação representa um desafio nas noites quentes de verão, quando a produção da eletricidade de fonte solar cai para zero, mas a necessidade de utilização dos ares condicionados se mantém. O problema tem tendência a intensificar-se à medida que a Califórnia avança no cumprimento da meta de as energias renováveis virem a ser responsáveis por 60% da produção de eletricidade até 2030, e em que procede à eliminação gradual da produção de energia programada a partir de centrais de combustíveis fósseis e nucleares. "Dada à importância crescente das energias renováveis no cabaz energético e o encerramento iminente das centrais de geração programada, a estabilidade e a segurança da rede de abastecimento passaram a estar no topo das preocupações do setor", observa o estudo. A pressão a que os grandes grupos da indústria petrolífera e de gás têm estado sujeitos levou-os a diversificarem as suas atividades e a comprometerem-se com o objetivo da neutralidade carbónica. Taxar o carbono e encorajar energia verde Para que se alcancem os objetivos fixados no contexto das alterações climáticas e se garanta a segurança do abastecimento de energia, o WEMO recomenda, entre outras medidas controlar as emissões de CO2 e fixar um preço elevado para as emissões de carbono e/ou impor impostos sobre o carbono, incluindo sobre os produtos importados, e encorajar a desenvolvimento de formas de produção de energia verde - energia renovável, e também centrais nucleares seguras que permitam produzir eletricidade "verde". Recomenda igualmente que se garanta a segurança da gestão da rede através de uma transformação digital e alterações no cálculo das tarifas para pagar os investimentos da transformação digital, bem como imposição de preços dinâmicos que permitam intensificar a resposta ao aumento da procura; e alterar a "ordem de importância dos meios de produção" para permitir a redução das energias renováveis, se necessário. Tudo sem esquecer o enfoque na eletrificação dos transportes e no desenvolvimento do hidrogénio verde. No fundo, trata-se de aproveitar o fundo europeu de recuperação, orçado em 750 mil milhões de euros, para apoiar projetos de desenvolvimento sustentável e de transição energética, com vista a uma economia realmente verde.

Artigos relacionados

As tecnologias só funcionam ao serviço das populações

Preço da energia para carregar veículos fora de casa baixa 5%

"Investimento do CEiiA traz fábrica de aeronáutica para Alentejo"