Vera Pinto Pereira. "A pandemia empurrou a mobilidade elétrica para a frente"

2020
06-10-2020

A presidente executiva da EDP Comercial compromete-se com mil pontos de carregamento em 2021, mas defende incentivos para operadores investirem fora dos centros urbanos, "onde ainda não é rentável".

"A pandemia acelerou a mudança de paradigma para a mobilidade elétrica", considera a presidente executiva da EDP Comercial. Vera Pinto Pereira exemplifica com o despertar coletivo para as vantagens de um mundo mais limpo, a chegada do teletrabalho e a intensificação da micromobilidade, "tendências que vieram para ficar e que empurram a mobilidade elétrica para a frente", diz. Enquanto líder da EDP Comercial, é testemunha direta do aumento contínuo do número de utilizadores de veículos elétricos - cujas vendas subiram mais de 70% em agosto - e dos carregamentos nos postos operados e fornecidos pela EDP. E porque a tendência deste mercado é crescer mais e mais, sem retorno ao passado, a EDP vai ultrapassar a meta que tinha inicialmente traçado, e conta chegar até ao final deste ano com mais de 700 postos de carregamento, entre os contratados com parceiros e os 382 ganhos no concurso da rede Mobi.e, revelou a executiva. Em parcerias com redes de hotéis, bombas de combustível, parques de estacionamento ou hospitais, a empresa tem atualmente 340 postos contratados (uns operacionais, outros em curso), e oito acabam de ser contratados no âmbito de uma parceria com o Hospital da Luz, indicou a responsável.

Incentivos para investir fora das cidades

Apesar "deste esforço importante", é ainda uma gota no oceano das necessidades estimadas para os próximos anos, que apontam para uma procura de 20 mil postos, em Portugal, já em 2025. "Por isso, é da maior importância continuar a crescer, e assumimos o objetivo de ter mil postos de carregamento na rede pública em 2021", anunciou. O compromisso de investimento vem acompanhado de alguns alertas às entidades com competências no setor. Vera Pinto Pereira defende incentivos aos operadores para garantir que a rede pública cumpre a missão de dar resposta às necessidades a nível nacional, tal como tem havido para os utilizadores de veículos elétricos. "É importante incentivar o investimento fora dos centros urbanos, onde ainda não é rentável", disse a presidente executiva da EDP Comercial. E elencou outras medidas necessárias, como rever e atualizar a rede Mobi e. para entrar na fase de mercado, acelerar os prazos de licenciamento e clarificar todo o processo ou agilizar as vistorias aos postos para atestar condições de segurança, processos que umas vezes cabem aos municípios, outras à Mobi e. E para acelerar a transição energética "é preciso que os incentivos sejam transversais a toda a cadeia e garantir que existe um modelo de exploração em regime de mercado", enfatizou a executiva.

15 mil bairros solares até 2025

A transição energética não se esgota na mobilidade elétrica, daí que Vera Pinto Pereira admita que a EDP tem também as baterias apontadas para a área da geração solar descentralizada, um segmento com grande potencial de crescimento e alinhado com a agenda da descarbonização. "Temos registado um crescimento assinalável nesta área e contamos com quase 100 MW instalados em casa dos clientes", que produzem energia de forma descentralizada, os chamados proconsumers. A empresa avançou com o primeiro bairro solar em Belas, o único operacional, mas a presidente assume objetivos mais ousados. "Temos a ambição de ter 15 mil bairros solares até 2025", revelou, acrescentando que estas comunidades aumentam o mercado potencial em 1 GW. Isto porque um produtor com painéis solares no seu telhado, terreno ou condomínio pode multiplicar os destinatários, como os vizinhos ao seu redor, baixando o custo para todos os envolvidos e contribuindo para a descarbonização, explicou. No campo das soluções domésticas para o carregamento elétrico, os clientes dispõem agora da "Tomada Casa EDP". Lançada muito recentemente, é uma solução que por 299 euros (com instalação incluída) permite um carregamento em segurança em moradias ou condomínios, explica a responsável, que assume o princípio de dirigir a oferta a vários tipos de clientes. É nessa linha que a operadora tem dado grande prioridade às empresas, com soluções para facilitar a gestão de frotas empresariais através da plataforma de gestão integrada dos carregamentos na rede pública e na rede privada Ev Charge. Vetores que convergem, todos eles, para o objetivo maior da descarbonização da economia, resume Vera Pinto Pereira.

Artigos relacionados

João Galamba: "Em dez anos 5% da energia consumida em Portugal virá do hidrogénio verde"

Pensar no ambiente num futuro cada vez mais elétrico

Teletrabalho, digital e bicicletas são as heranças da pandemia