
Barcelona quer dar o "Eixample" da maior reforma urbana na Europa

Eixample é o bairro mais central e também mais poluído da capital catalã que irá reduzir, até à próxima década, 40% do tráfego automóvel.
Eixample irá reduzir, até à próxima década, 40% do tráfego automóvel. Praças, árvores, comércio, ciclovias ou jardins vão ocupar os 21 eixos rodoviários com os maiores níveis de poluição.
O asfalto, no centro da cidade de Barcelona, em Espanha, tem os dias contados. Não se trata propriamente de uma de uma cruzada contra o alcatrão. É antes a estrada que a capital da Catalunha começou agora a percorrer para reduzir drasticamente a circulação dos carros nas artérias mais congestionadas. As obras arrancam este verão nas ruas de São Consell de Cent (na imagem computadorizada), de Girona, de Rocafort e de Comte Borrell. Até ao primeiro trimestre de 2023, estas quatro artérias do Eixemple vão ter os seus cruzamentos ocupados com praças, jardins, hortas, arte pública, parques infantis, ciclovias ou esplanadas. A empreitada definirá também o arranque da estratégia já definida para 2030 e com uma meta final, ainda sem calendário, de 500 ruas com o trânsito condicionado na grande área urbana do bairro Eixample. Com um orçamento de 38 milhões de euros para transformar, até à próxima década, 21 artérias em 33 hectares de calçadas, circuitos pedonais e espaços verdes, o plano da autarca Ada Colau ambiciona ser uma das reformas europeias mais ambiciosas para "pensar na nova cidade para o presente e o futuro - com menos poluição, nova mobilidade e novo espaço público", anunciou a alcaide durante a apresentação do megaprojeto. Mais de 350 mil veículos usam todos os dias as 21 ruas de Eixample para atravessar a cidade. Além de ser a área urbana mais central de Barcelona, é a que também apresenta uma maior concentração de dióxido de azoto (NO2) e partículas suspensas - poluentes resultantes da queima de combustíveis fósseis responsáveis por doenças respiratórias e cardiovasculares. Com exceção de 2020, devido à pandemia e restrições à mobilidade, o bairro regista todos os anos concentrações de NO2 e de partículas suspensas acima dos valores recomendados pela União Europeia e pela Organização Mundial de Saúde. A área urbana de Eixample está, aliás, no topo das mais contaminadas, tendo sido em 2019 responsável por 23% dos óbitos ocorridos na região. Segundo a Agência de Saúde Pública de Barcelona, a poluição provoca mais de 1000 mortes por ano na capital catalã.O combate contra a poluição
É, portanto, esse o combate que o Ayuntamiento de Barcelona diz querer travar com a reconversão do espaço rodoviário em "eixos verdes" a serem projetados em todos os cruzamentos das 21 artérias. Numa primeira fase, espera-se que a intervenção nos quatro blocos, onde os trabalhos vão começar, elimine 25% do tráfego automóvel, passando as ruas de Consell de Cent, Rocafort, Borrell e Girona de 113 para 96 faixas de rodagem. O plano da autarquia prosseguirá depois com as restantes 17 praças a seguirem o mesmo percurso. O objetivo é reduzir, no total, 40% da circulação dos carros até à próxima década. Os projetos para a reconversão das primeiras quatro ruas foram colocados a concurso público, com a autarquia a definir previamente as condições que todos os candidatos teriam de cumprir. O critério mais importante estabeleceu que 80% da rua teria de estar coberta de árvores e que pelo menos 20% do solo fosse permeável à chuva. O equipamento urbano, por outro lado, deveria privilegiar a promoção da mobilidade entre as crianças e população idosa. O município quer também recuperar a tradição dos paralelepípedos de granito basalto preto, prestando uma homenagem ao urbanista Ildefons Cerdà, que no século XIX, projetou o Eixample para expandir o centro da cidade (ver caixa). É sobre este piso quadriculado que irão florescer jardins, zonas de lazer, circuitos pedestres e cicláveis. Outras das premissas é que as calçadas se estendam numa única plataforma, colocando-a no mesmo nível para não distinguir os passeios da estrada. A ideia é que todo o espaço seja do peão. Os carros não estão totalmente proibidos, mas perdem a prioridade e terão de circular a 10 km/hora. Essa é umas condições essenciais para respeitar os princípios urbanísticos de Ildefons Cerdà, que sempre defendeu o espaço público inclusivo e democrático, salienta a autarquia. A preservação do comércio local é outro ponto central do projeto com a autarquia a suspender novas licenças e alvarás por um período de um ano. A medida surge, segundo Ada Colau, para preservar e requalificar as cerca de 600 lojas já existentes, mas também como uma estratégia para evitar a gentrificação e a concentração de negócios da restauração e da alimentação.O peão no centro do bairro

A bandeira eleitoral de Colau
O plano está traçado com a alcaide Ada Colau a correr agora contra o tempo para apresentar a grande transformação urbana do bairro Eixample como a principal bandeira eleitoral para conquistar o seu terceiro mandato em maio de 2023. A empreitada, no entanto, resulta de uma caminhada que começou muito antes, em 2016, quando a cidade catalã inaugurou a primeira "Superilha" em Ponblenou, prosseguindo, nos anos seguintes, o projeto em mais oito eixos dos bairros de Horta, Sant Martí e Sant Antoni. Tal como o bairro Eixample, as primeiras "Superilhas" também foram projetadas para reduzir o trânsito e alargar o espaço público destinado aos peões. As áreas verdes entraram há cinco anos no planeamento urbano destes quatro bairros para combater a poluição da cidade e, desde essa altura, os níveis de dióxido de azoto tiveram uma redução de 33%, segundo os dados do Ayuntamiento de Barcelona.Uma grelha sem manchas verdes no centro da cidade
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