Benjamin de la Peña: Meios de transporte informais dominam nas metrópoles do Sul""

2021
13-05-2021

O Equador marca uma rutura na mobilidade das populações: pública e centralizada a Norte e informal a Sul, onde representa 80% das deslocações na Cidade do México, Lagos ou Manila. Um modelo também a ganhar terreno na Europa e que esteve em destaque na primeira entrevista PMS2021.

De que falamos quando falamos de mobilidade partilhada a nível global? Tal como o mundo é diverso, também os meios de transporte diferem em função da latitude em que nos encontramos, com diferenças bem vincadas entre o norte e o sul do Equador. "Se a Norte tudo assenta mais num sistema formal, público e centralizado de transportes, a sul, da América Latina ao Sudeste Asiático, é a mobilidade informal que domina, assegura Benjamin de la Peña,CEO do Shared-Use Mobility Center, nos Estados Unidos, e especialista em mobilidade partilhada. Benjamin de la Peña não hesita mesmo em afirmar que "se olharmos para as grandes cidades do sul global, como Lagos(Nigéria) ou Manila (Filipinas),os modos de transporte informal são claramente predominantes, chegando a representar entre 70 a 80% das deslocações". Uber em 3 rodas domina na Ásia "Nos países do Sudeste Asiático, a Uber, por exemplo, tem muito mais veículos de três rodas do que de quatro". Na Indonésia, as moto-táxis são muito populares, enquanto na Cidade do México metropolitana os mini-bus, apelidados de "colectivos",transportam75% da população. Toda esta realidade fica a anos-luz da que se vive, por exemplo, nos Estados Unidos, onde os utilizadores regulares de transportes públicos atingem no máximo dez a quinze por cento, observa o especialista, que trabalha com a Fundação Rockefeller. Seja onde for, o modo como nos movemos do ponto A ao ponto B está em mudança permanente e tem cada vez mais alternativas, conclui o especialista na primeira entrevista da 4ª edição do Portugal Mobi Summit, focada na mobilidade informal e inclusiva, a partir dos Estados Unidos. Dos tuk-tuk, aos coco-táxi (táxis de três rodas que circulam em Havana), passando pelos candongueiros (mini-bus em Luanda) ou riquexós em Nova Deli (Índia), a verdade é que a mobilidade informal sempre existiu, sobretudo nos países em desenvolvimento, estando agora a Europa a aderir também a modos alternativos de transporte, mas com incorporação tecnológica e preocupações de sustentabilidade ambiental. " O modelo de negócio é similar ao das tradicionais centrais de táxis: alguém tem a propriedade do veículo paga uma pequena comissão por corrida".O telefone, e melhor ainda, o smartphone, passou a ser a ferramenta essencial desta nova era da mobilidade, que em alguns países escapa à regulação. Descarbonização tem de incluir mobilidade informal Segundo De La Peña, esta realidade da mobilidade informal está pouco estudada e quantificada, ficando, por isso, de fora da regulação e do planeamento urbano. Mas é um erro significativo, avisa. Basta pensar que ela é geradora de rendimentos, que escapam ao sistema fiscal, gera empregos, ainda que precários, e, nestes países, serve a grande maioria da população, sustenta o convidado do Portugal Mobi Summit. Por outro lado, "seos governos estão empenhados no esforço de descarbonização,não podem centrar-se apenas no sistema de transportes públicos e ignorar os meios que servem a maioria da população, alerta." A solução apontada por De La Pena, sobretudo para os países onde mais impera a mobilidade informal, é trazer esses operadores, muitos deles ilegais para dentro do sistema, dando-lhes incentivos para renovarem a frota de modo mais ecológico através, por exemplo, de empréstimos a juros baixos e criando a obrigação de reinvestir uma parte do dinheiro em renovação da frota e começando a pagar impostos. É a maneira de tornar todo o sistema de transportes mais sustentável, considera. "Ao não reconhecer estes modelos de negócio como parte do sistema de transportes, é como se não se reconhecesse e não se validasse a sua existência".Mas, avisa, uma regulação demasiado forte acaba por não ser eficaz, porque conduz a mais fuga. O presidente executivo da Shared-Use Mobility Center lembra que "a mobilidade informal é muito resiliente"e que não vai acabar, tendo uma relação antiga aos regimes coloniais. Por outro lado, à medida que as cidades crescem e as pessoas vão morar cada vez para mais longe do centro onde trabalham, mais estes meios de transporte surgem para se adaptar às necessidades das populações que não são planeadas pelos governos com a rapidez com que as mudanças acontecem. "As cidades vão crescer mais depressa do que é possível planear" e estes modos são mais flexíveis, na medida em que podem ir buscar uma pessoa de um ponto ao outro diretamente". Na opinião deste urbanista, os governos deveriam conhecer melhor este mercado para planearem os investimentos públicos em transportes. Um exemplo apontado foi o de um investimento em cinco novas linhas de metro em Nova Deli (Índia), quando cerca de 80% da população nem sequer tem dinheiro para comprar o bilhete.

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