Inteligência artificial mapeia perigos para condutores de trotinetes

2021
22-04-2021

Visão computacional permitirá alertar para congestionamentos, evitar pisos degradados ou rastrear acidentes ocorridos com trotinetes elétricas.

Ensaios inéditos nos campus universitários de Dublin vão permitir dotar estes transportes com visão computacional capaz de alertar para congestionamentos, evitar pisos degradados ou rastrear artérias desajustadas à micromobilidade.

Durante os próximos seis meses, 18 mil estudantes e dois mil funcionários da Dublin City University, na capital irlandesa, serão as cobaias de um ensaio-piloto inédito. Deixar o carro em casa é o primeiro passo para participar neste teste que quer pôr toda a comunidade académica a se deslocar em trotinetes elétricas nos cinco campus universitários localizados no norte da cidade. Estas trotinetes, porém, são especiais. Todas elas vão usar a inteligência artificial para recolher e analisar dados, permitindo conhecer quais são os riscos de segurança para os seus utilizadores e onde estão as principais fragilidades deste modo de transporte. As frotas de trotinetes elétricas partilhadas surgiram nos últimos anos em praticamente todas as cidades do mundo, acrescentando uma nova dimensão às opções de mobilidade urbana. Mas com a sua popularidade vieram também os acidentes, colocando este transporte, até então vocacionado para fins recreativos, debaixo da vigilância de boa parte dos municípios, como é o caso de Dublin, onde só agora as autoridades preparam um pacote legislativo para autorizar a sua circulação na cidade. A cautela tem sido o tom dominante das políticas urbanas sobretudo depois de vários estudos alertarem para os perigos que estes veículos podem representar para utilizadores e peões. A investigação mais recente, divulgada em finais do ano passado pelo Insurance Institute for Highway Safety, nos Estados Unidos, demonstrou, por exemplo, que os condutores de trotinetes sofrem duas vezes mais lesões por quilómetro do que os ciclistas e têm também duas vezes mais probabilidade de se ferirem por causa das más condições do pavimento ou choques com postes de iluminação e placas de sinalização. Fraturas do crânio, lesões na coluna, queimaduras nos braços e pernas ou danos na dentição são, por outro lado, alguns dos traumatismos mais frequentes que resultaram dos acidentes com trotinetes elétricas listados num outro estudo conduzido em janeiro deste ano pela autoridade de saúde pública do Canadá. Os testes que agora estão prestes a arrancar na Dublin City University surgem precisamente para encontrar formas de minimizar os riscos, sendo este o primeiro grande projeto entre a indústria e a investigação académica para usar a inteligência artificial na micromobilidade. O objetivo passa por equipar uma frota com cerca de 30 trotinetes com visão computacional, gerando dados que serão depois aplicados em novas app e tecnologias que possam ser integradas nas smart cities. Os ensaios envolvem a colaboração entre a operadora europeia Tier Mobility, a startup irlandesa de micromobilidade Luna, o centro de investigação irlandês Insight SFI e, por fim, a Dublin City University com a sua plataforma de parceiros tecnológicos.

Algoritmos na estrada

Apetrechadas com tecnologia Luna, as trotinetes elétricas da Tier vão ser capazes de usar algoritmos para detetar os peões, distinguir passeios de estradas, permitindo aos veículos entender quantas pessoas estão no seu caminho, bem como se estão nas faixas rodoviárias, em ciclovias ou em zonas pedonais. As funcionalidades que os investigadores pretendem retirar deste ensaio incluem ainda alertas sobre congestionamentos de tráfego nos itinerários traçados, monitorização das condições das estradas, mapeamento de mobiliário e outras infraestruturas urbanas ou aplicativos de gestão de circuitos pedestres. Entre os vários objetivos deste projeto o mais ambicioso passa por criar um rastreio térmico de incidentes ocorridos nos passeios, que indicará posteriormente quais os cruzamentos e artérias mais problemáticos para a circulação de trotinetes ou as infraestruturas inadequadas à micromobilidade. Os ensaios permitirão igualmente desenvolver uma plataforma com posicionamento de alta precisão e visão computacional, possibilitando aos operadores saber onde estão as trotinetes e como estão a ser conduzidas e estacionadas. Como parte do projeto-piloto, a equipa de investigadores também analisará outros fatores em torno de comportamentos e atitudes dos utilizadores não apenas para prevenir acidentes como também para entender que tipos de estratégias comerciais são mais apropriadas para as operadoras de trotinetes partilhadas. Substituir o automóvel pela trotinete elétrica nos campus da Dublin City University é o que se espera alcançar com os resultados dos testes-piloto. Mas, o âmbito destes ensaios, a decorrerem até novembro deste ano, pode vir a ser muito mais alargado. Pelo menos, é isso que os seus promotores acreditam. "Este projeto de investigação ajudará a moldar o futuro em relação à segurança e ao valor municipal das trotinetes elétricas, não apenas em Dublin e na Irlanda, mas a nível mundial", explicou ao "The Irish Times" Andrew Fleury, cofundador e CEO da Luna.

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