
Mobilidade elétrica: um futuro mais verde, tecnológico e económico

Mobilidade e sustentabilidade ambiental podem andar a par. O caminho para o conseguir passa não só pela eletrificação do setor dos transportes como pela aposta em soluções tecnológicas e novos modelos de mo
O futuro da mobilidade num ecossistema sustentável esteve em discussão esta tarde, na Casa das Histórias, num debate que reuniu Gustavo Monteiro, administrador executivo da EDP, Robin Berg, CEO da We Drive Solar, Michael Phelan, cofundador e CEO da Grid Beyond e David Slutzky fundador e CEO da Fermata Energy, e colocou a mobilidade partilhada, as energias renováveis e a aposta em aplicações tecnológicas como parte da solução para um futuro mais verde.
"O desafio é saber como preparar as cidades para um ecossistema mais sustentável, sem deixar de lado as necessidades atuais. Esta é uma transição acelerada e por isso há o risco de deixar alguém para trás", alertou Gustavo Monteiro. O administrador executivo da EDP sublinhou a importância da eletrificação do setor dos transportes, dado o seu peso na descarbonização. "O setor é responsável por 25% das emissões de CO2 à escala global e, na Europa, um veículo elétrico emite três vezes menos CO2 do que um veículo convencional", recordou. Para o responsável da EDP, as tecnologias vão desempenhar um papel importante na transição para um ecossistema mais sustentável, antecipando que o lançamento de novas soluções no mercado conduza a uma descida de preços e a uma maior acessibilidade da mobilidade elétrica. Ao mesmo tempo, o aumento do número de postos de carregamento também tornará a mobilidade elétrica mais apetecível. "Portugal assiste a um aumento da rede de carregamentos. Neste momento a EDP tem mais de mil postos de carregamento públicos e vamos multiplicar esse número por 40, tanto em Portugal como noutras geografias em que atuamos", anunciou. Ainda no que diz respeito à disponibilidade de postos de carregamento, Gustavo Monteiro sublinhou a importância dos postos privados, aproveitando para referir o trabalho da EDP junto dos condomínios habitacionais. "São locais que têm espaços de parqueamento partilhados para os quais estamos a criar soluções que resolvam o problema do pagamento - para que ninguém use a energia que outro vizinho pagou - mas também do tempo de carregamento", explicou, dando como exemplo soluções de carregamento inteligente que, " com a mesma quantidade de energia, permitem carregar 10 vezes mais carros".Menos carros, a mesma mobilidade
Robin Berg não tem dúvidas de que é possível ter a mesma mobilidade nas cidades com menos carros. A solução proposta pela We Drive Solar passa pela aposta na mobilidade partilhada, com recurso a veículos elétricos, movidos a energia solar. "Integramos diferentes soluções para a cidade", assumiu Berg. Para o CEO da empresa holandesa, a pandemia e os sucessivos confinamentos fizeram questionar a necessidade de ter carro próprio e aumentaram a apetência para modelos de transporte mais limpos e eficientes. "As pessoas estão cada vez mais conscientes de que ter carro próprio na cidade é algo que ocupa muito espaço. Com a mobilidade partilhada, as pessoas podem não ter carro próprio mas usar um sempre que precisam", defendeu. Quando questionado sobre o impacto da subida dos preços da energia na mobilidade elétrica, Berg mostrou-se otimista. "É algo que vai aumentar a velocidade da transição. Um dos principais fatores são os preços elevados com grande dependência de combustíveis fósseis. Acredito que vamos beneficiar de maior investimento nas renováveis, que se tornarão cada vez mais atrativas. O preço da eletricidade está muito alto, mas, por cada painel solar instalado, por cada moinho eólico, ficamos menos dependentes dos combustíveis fósseis", vaticinou. Também Gustavo Monteiro manteve o tom otimista quanto ao preço da eletricidade e o seu impacto na mobilidade elétrica. "O pico de preços é sentido sobretudo ao nível do mercado grossista e não das tarifas domésticas, que não sofrerão aumentos até ao final do ano", assumiu. O responsável da EDP aproveitou para sublinhar que, ainda assim, os veículos elétricos continuam a ser uma solução mais barata para o consumidor, com um custo de abastecimento de 2,5 euros por cada 100 quilómetros, contra os "9 a 10 euros" dos veículos convencionais. Quanto ao futuro dos preços, e embora admitisse, com uma nota de humor, que previsões "só com uma bola de cristal", Gustavo Monteiro antecipou uma estabilização dos preços para o segundo semestre de 2022.Carregamentos cada vez mais inteligentes
Por seu turno, Michael Phelan, CEO da Grid Beyond, empresa irlandesa há uma década a atuar no mercado das smart grids, destacou o papel de soluções com recurso a inteligência artificial (IA), para uma mobilidade mais eficiente e sustentável. "Recorrendo à IA podemos criar soluções que consigam prever quando é que o veículo precisa de carregamento, quais os postos de carregamento disponíveis e quais os momentos em que a energia é mais cara. Com recurso a estas informações podemos otimizar o consumo de modo a minimizar os custos do carregamento", garantiu. "Se fizermos bem o nosso trabalho, o custo do carregamento de um veículo elétrico será muito inferior ao de um veículo a gasóleo ou gasolina", vaticinou. Para Phelan, este tipo de soluções é particularmente interessante para empresas com frotas de camiões. "Em termos de indústria, este é um setor muito exposto às flutuações de preços do mercado. É importante prever bem o momento em que é feito o carregamento e, uma vez mais, a IA pode ajudar", referiu. Por seu turno, David Slutzky, CEo e fundador da Fermata Energy, defendeu que uma maior aposta em veículos bidirecionais permitirá que os seus utilizadores e empresas fornecedoras façam maior pressão sobre o mercado, levando a uma redução dos preços da energia. A Fermata Energy desenvolve sistemas V2X, que permitem integrar os veículos elétricos nas redes de abastecimento de energia, permitindo-lhes devolver parte da energia armazenada à rede. "A partir do momento em que colocamos uma bateria num carro, este torna-se gerador de valor", garantiu Slutzky, para quem esta é uma solução que não só pode gerar mais interesse na mobilidade elétrica, como permite reduzir os custos e garantir um abastecimento mais eficiente e sustentável.