
Nova era traz veículos elétricos e autónomos chamados por uma app

Quando os carros a combustão têm os dias contados, marcas como a Volvo já planeiam a próxima era, assente na prestação de serviços e não só na venda de carros. Um mercado que as gigantes tecnológicas querem apanhar e que esteve em foco em mais uma sessão PMS2021.
O desafio lançado pelo Portugal Mobi Summit era saber se a indústria automóvel está no caminho certo para a descarbonização. E a conclusão é que não só a eletrificação na indústria está a evoluir mais rápido do que se pensava, nomeadamente em Portugal, como se prepara para dar o salto para uma nova era. É quase como se a eletrificação automóvel fosse já um desafio do passado para as construtoras, que já visionaram essa realidade há vários anos, e tivessem agora ligado os motores para a transformação do próprio modelo de negócio, com o setor automóvel a tornar-se cada vez mais num prestador de serviços de transporte versus mero vendedor de equipamentos.
Essa foi, pelo menos, a mensagem deixada pela consumer experience director da Volvo Cars Portugal, Aira de Mello, na segunda sessão do PMS2021, emitida esta semana na TSF.
"Acreditamos que o modelo de negócio já está a mudar, desde as vendas online ao carro como um serviço e não como propriedade individual", revelou Aira de Mello. Um forte sinal nesse sentido é o facto de a Volvo ter "em cinco mercados europeus um novo conceito de não aquisição de automóvel em que as pessoas subscrevem um serviço que é um automóvel, mas também outros serviços associados".
E prossegue: "Quando se compra um carro 100% elétrico, há sempre o ónus de no prazo de oito anos não saber o que fazer ao carro. É uma questão pertinente, sobretudo para os portugueses que superam a média europeia de do seu parque automóvel. Com este modelo de negócio em que as pessoas não adquirem a viatura, esse ónus desaparece. As pessoas pagam uma mensalidade e beneficiam de serviços extra na área da mobilidade, entretenimento, lazer, etc.", exemplificou.
A diretora da construtora sueca antecipa que "daqui a 10, 20 anos o que queremos é uma mobilidade total em que esta subscrição seja mais evidente e, com a condução autónoma, as pessoas possam nem sequer ter um automóvel parado à porta de casa".
Porque o usufruto do automóvel é muito curto, ficando mais de 90% do tempo parado, "a condução autónoma é uma melhor opção, em que é possível requisitá-lo através de uma app, levando o passageiro do ponto A ao B em total segurança, onde é possível viajar a ler, a ouvir música, a conversar ou a trabalhar e, chegado ao destino, o automóvel parte para outro destino, servindo outro cliente".
E para um construtor de automóveis isso não é um tiro no pé? "Não, o futuro caminha para esse cenário e sabemos que há empresas de fora do setor – as virgins, as amazons, as googles – que vão lançar estas soluções no mercado. Se não formos nós no setor a acompanhar, a liderar, mais cedo ou tarde vamos desparecer", considerou.
Em todo o caso, a Volvo nunca teve um crescimento tão significativo como desde que enveredou pela eletrificação. "E agora estamos a lançar os 100% elétricos e a descontinuar os motores a combustão, que têm os dias contados. Em alguns modelos já não existe sequer essa opção, como é o caso do XC40, o nosso best-seller ou o S60.
Preço das baterias caiu 13% num ano
Por enquanto, ainda há contudo algumas condicionantes a uma maior expansão da mobilidade elétrica, como sejam o custo das baterias, que influencia significativamente o preço dos veículos ou a ainda frágil distribuição geográfica da rede de carregamento público. Nesta matéria, Pedro Vinagre, administrador para a Mobilidade da EDP Comercial está otimista. "O preço das baterias caiu de 2019 para 2020 cerca de 13%, sendo a componente mais cara do veículo elétrico. Esta redução de custo é fundamental para a democratização da mobilidade elétrica e para que as poupanças de consumo sejam ainda mais expressivas, levando os clientes a optar por veículos elétricos. Já hoje, do ponto de vista do custo total em algumas utilizações, o racional económico está lá, garante.
Pedro Vinagre acredita que a tendência de descida dos preços das baterias continuará nos próximos anos por duas razões. Em primeiro lugar, pelo aumento exponencial de procura a que já estamos a assistir. Em segundo lugar, do ponto de vista da tecnologia, estão a aparecer desenvolvimentos que vão ajudar a reduzir o custo destas funções. Tudo isso vai baixar o custo de produção. "Há um potencial enorme para várias utilizações – painéis solares com baterias acopladas ou a reciclagem de alguns dos seus componentes valiosos para outros fins são um bom exemplo, mas não podemos deixar de fora o tema da segunda vida das baterias", avisa.
Nos veículos elétricos, elas têm um tempo limitado de cerca de dez anos, mas ao fim desse período elas podem ainda ter uma utilização. "Hoje, isso é uma prioridade para todos os agentes de mercado – aliás, a EDP Inovação está a liderar o projeto Second Life para as baterias – e acreditamos que mais meios serão encontrados de utilização dessas baterias numa segunda vida, deixando esse aspeto de ser um dos mais críticos na mobilidade elétrica. Uma bateria a 60 ou 70% da sua capacidade, embora não sirva mais para os VE, pode permitir armazenagem de energia através de painéis solares para usar nos períodos em que ela é mais cara, substituindo o consumo da rede", concluiu aquele administrador.
Hidrogénio tem vantagem para transportes
Na mesma linha, o ex-secretário de Estado da Mobilidade, José Mendes, diz que "a mobilidade está em ebulição. Mas quer ao nível da escolha modal, quer ao nível da motorização dos veículos, temos ainda de fazer alterações substanciais". Lembra ainda que como em quase tudo na vida, há externalidades negativas. "Quando se altera o paradigma de forma tão disruptiva, surgem sempre algumas dificuldades – a primeira são as incumbentes porque a fórmula de motorização associada aos motores de combustão interna ainda acarreta muito know-how instalado e ocupa muito emprego e a transição não se faz do dia para a noite".
Ou seja, sem veículos não há uma linha de negócio sustentável para colocar carregadores e se não há rede de carregamento as pessoas também não compram veículos. Esse impasse tem sido ultrapassado não só à conta do investimento do Estado, mas também de grandes desenvolvimentos na oferta de carregamentos ultrarrápidos.
Quanto ao problema do fim de vida das bateriais, José Mendes refere que a indústria da reciclagem está a ganhar também ela própria tração, adquirindo finalmente um volume que se justifica. Por outro lado, destacou as fuel cells a hidrogénio, que "podem ajudar a reduzir o tamanho das baterias tanto no seu volume como na intensidade de utilização. Há, portanto, um caminho a fazer", conclui.
"Nós na Fundação Mestre Casais estamos a fazer um estudo a apresentar como recomendação ao governo e às empresas de renovação das frotas de transporte coletivo de passageiros. Quando olhamos para o custo total de operação, verificámos que há uma vantagem das tecnologias de hidrogénio".