Thierry Mortier. A eletrificação da Europa deve começar pelas frotas

2021
20-10-2021

O objetivo da intervenção inicial da tarde do primeiro dia da quarta edição da Portugal Mobi Summit era responder à pergunta: "A sua cidade está preparada para a eletrificação de frotas e veículos pesados? Como uma infraestrutura de energia escalável e o digital são fatores críticos na aceleração da mobilidade elétrica". E a resposta foi dada por Thierry Mortier, Global Digital & Innovation Lead for Energy da Ernst & Young (EY).

"Hoje vou falar-vos na escala da eletrificação dos transportes e na execução dessa agenda", começou por dizer Thierry Mortier, adiantando que iria já revelar dois ingredidentes secretos nesta caminhada: "um é frotas e o outro são infraestruturas". Mortier começou por mostrar o porquê desta necessidade de eletrificação: "25% dos gases de efeito estufa provêm dos transportes e 400 mil mortes prematuras, 90% dos residentes da Europa estão expostos a poléns". "Não estamos na trajetória certa, como todos sabemos, temos de fazer melhor para obtermos um decréscimo de 65% nas emissões, e temos muitos fundos, temos 1 triliões de euros disponíveis no próximo ano para promover esta agenda. Há um enorme esforço que precisa de ser feito. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von er Leyen chama a isto o momento homem na Lua e eu acho que ela tem razão". Mas como é que podemos executar esta agenda e por onde começamos? "Como eu já disse, creio que existem dois componentes essenciais para se ter sucesso. O primeiro são as frotas. Olhando para um estudo que fizemos recentemente, e que fala sobre frotas e a adoção de carros elétricos, vamos imaginar o futuro em 2030: 100 cidades neutras em termos climáticos, 30 milhões de veículos elétricos nas estradas, três milhões de estações de carregamento públicas. Como é que fazemos isto? Imagem o número de pessoas que precisamos de meter na rua para instalar todos estes carregadores e mantê-los?", questionou o responsável da E&Y. E deu como exemplo a cidade de Shenzhen, na China. "Nós fomos à China num chamado EV Safari [Safari de Veículos Elétricos] para ver a eletrificação dos transportes à escala. Shenzhen é uma cidade que começou por eletrificar a sua rede de autocarros públicos e agora 30% a 40% dos carros hoje já são elétricos. Aliás, toda a cidade está a eletrificar-se, em 2019 já tinham um milhão de pontos de carregamento, atualmente já devem ter três milhões de pontos de carregamento", contou Mortier, acrescentando que este exemplo "é algo que devemos ter em mente na eletrificação da Europa e Portugal". Porquê as frotas primeiro? Porque é que pensamos que as frotas são o elemento-chave na eletrificação dos transportes? As questões foram colocadas por Thierry Mortier, para logo em seguida responder a elas. "20% dos veículos atualmente fazem parte de uma frota. Não parece um número muito grande, mas representam 40% dos quilómetros conduzidos e 50% das emissões. Por isso, faz sentido começar pelas frotas. Ainda para mais, as frotas são mais investíveis e rotas mais previsíveis, entre outras vantagens". A pergunta que se impõe a seguir, desvenda o responsável da E&Y, é entre as frotas quais serão as melhores para implementar a eletrificação? "60% do mercado das frotas são carros de empresa, carros partilhados (pool cars) e veículos comerciais. E recomendamos a cidades, empresas e governos que comecem por este tipo de frotas". Mortier referiu ainda que existe uma conclusão do estudo que referiu anteriormente e que tem a ver com o facto de muita gente pensar em comprar um veículo elétrico em termos de alcance, disponibilidade dos carros. "Mas eu não acho que essa seja a questão. O problema que nós encontrámos é que as pessoas escolhem o seu veículo elétrico se tiverem a garantia que o seu negócio não é pertubado, ou se se trata de um particular, se tiverem a garantia que a sua família não é perturbada, que pode levar os filhos à escola, por exemplo". Para fundamentar esta teoria, o representante da Ernst & Young falou de uma experiência que levaram a cabo e que tem a ver com a capacidade da bateria, algo que antes não tinha importância, mas que atualmente é um fator decisivo na altura de escolher um veículo elétrico, nomeadamente no caso das empresas, pois podem representar ou não uma perturbação do negócio. "No último ano, eu vi as conversas mudarem de 'não sei se haverá carros suficientes', porque eu acho que existem modelos suficientes, para 'nós podemos ter problemas com as infraestruturas'", notou Thierry Mortier. "E isto leva-me à segunda parte da minha apresentação. Como é que as infraestruturas são cruciais para a adoção de veículos elétricos?". As insfraestruturas vão ser, defende o Global Digital & Innovation Lead for Energy da Ernst & Young, "o entrave à adoção dos veículos elétricos. Se olharmos para os números de números de carregadores necessários e o investimento que é necessário para o conseguir estamos a falar de uma tarefa enorme à nossa frente. E não tenho a certeza de que seremos capazes de o executar em termos operacionais e de financiamento". Em 2035, serão necessários 62 milhões de carregadores na Europa, desde carregadores privados, a carregadores superrápidos, revelou Mortier. "E isso é um problema", sublinhou. "Não pela eletricidade necessária, mas pela capacidade. Não é um problema de kW por hora, mas sim um problema de kW". Um novo estudo que a E&Y está a levar a cabo pretende perceber, entre outras coisas, onde é preciso manter o enfoque para conseguir a propagação do veículo elétrico, nomedamente nesta questão dos carregamentos. "Vemos aqui seis exemplos, corredores de autoestradas, hubs de frotas, hubs noturnos, locais de trabalho, condomínios residenciais e residências privadas", mostrou, dizendo que será através desta observação que irão "perceber onde vão ocorrer os maiores problemas". " minha antecipação é que nas residências familiares particulares será um problema menor, pelo contrário acho que os corredores de autoestradas vão ser um problema por causa das ligações aos carregadores de camiões pesados". Os resultados deste estudo serão conhecidos no início de fevereiro. Existe ainda a questão do financiamento, como se conseguirá financiar tudo isto, pois os financiadores não ficam muito entusiasmados com os números do retorno e quanto tempo esse retorno demora. "Mas se juntarmos publicidade, melhores contratos de arrendamento das propriedades, integração vertical, consegue-se melhorar em 10 a 15% os valores", explica Mortier. O controlo digital das redes também algo que deve ser implementado, defende este especialista. "Saber onde estão os pontos de carregamento, se estão a funcionar, como é que eles se interligam, como é que podem ser reparados se necessário, é uma necessidade absoluta, é uma necessidade para os operadores de rede, é uma necessidade para as agências de controlo de trânsito, é uma necessidade, para os governos e para as cidades, e não será possível fazer isto sem tecnologia. Por isso, a capacitação digital para o veículo elétrico é crucial. E é por isso que nós, na E&Y, investimos na construção de um sistema, estamos a construir um centro de operações nacional nos EUA para veículos elétricos como o que vimos na China e estamos a falar com parceiros europeus para fazer o mesmo na Europa".

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