
A "revolução energética" exige licenças mais rápidas e muito investimento

António Coutinho, CEO da EDP Inovação, explicou como a "transição energética" é já uma "revolução". É preciso "fechar o carvão, expandir as renováveis, utilizar hidrogénio verde e desenvolver novas tecnologias para o cimento e o aço". E para isso as licenças têm de ser "mais rápidas" e o investimento muito maior
O CEO da EDP Inovação, António Coutinho, iniciou a sua intervenção sobre a transição energética no Portugal Mobi Summit, na manhã desta quinta-feira, com uma pergunta que é um desafio para todos: "O que aconteceria pessoalmente a cada um de nós se amanhã deixasse de haver petróleo? Quando faço essa pergunta a amigos meus, uns dizem 'bem deixava de andar de carro' ou 'a mim não acontecia nada que tenho um carro elétrico'. Eu tenho de lhes dar a má notícia de que se amanhã deixasse de haver petróleo eles provavelmente morreriam à fome. A nossa agricultura depende de fertilizantes, de tratores, depende que nos tragam a comida de onde ela é produzida para onde nós a consumimos".
Mas como o aquecimento global está a mostrar, "com secas extremas e o Paquistão um terço submerso, o mundo sente que até 2050 temos de reduzir as emissões poluentes para chegar a menos 1,5 graus celsius até final deste século", lembrou. "A próxima década é de mudança no paradigma energético. Agora estamos a fazer um reset e a substituir tudo por eletricidade. Não é uma transição energética, é mais uma revolução energética. Hoje a eletricidade representa 22% do consumo energético total energético e temos de passar para 70% em apenas 30 anos", frisou António Coutinho.
E para se acelerar o passo vão ser necessários "licenciamentos mais rápidos" para postos de carregamento, resolver o problema das cadeias de fornecimento no caso da mobilidade elétrica - "uma mina demora 16 anos a ser construída e a estar em operação" - e multiplicar os investimentos. Porque os desafios são mais que muitos em tão pouco tempo: "Temos de fechar o carvão, expandir as renováveis, no caso da indústria eletrificar o calor, utilizar hidrogénio verde e desenvolver novas tecnologias para o cimento e o aço que são as áreas para as quais a tecnologia ainda não está lá. Para a mobilidade é preciso eletrificar o transporte, utlizar hidrogénio e biocombustiveis sintéticos para a área marítima e da aviação e para as nossas casas eletrificar o calor e melhorar a eficiência energética e produzir a nossa própria energia para consumo dos nossos edifícios".
Em 2050, o ano das emissões zero como definido pela ONU, "90% da energia gerada, elétrica, tem de vir do vento e solar e das renováveis". Para cumprir esse objetivo ambiciso, é preciso investir muito mais. "É necessário estar a investir quase 9 triliões por ano até chegar a 2050 e o ponto é que não estamos lá. Em 2021 estávamos a fazer 750 biliões de investimento, não chegámos a um trilião. Em 2022 a mobilidade é colocada como o maior destino de investimento na transição energética, e a região do mundo que está a liderar nesta área é a Asia e em particular a China".
Na mobilidade, quando passamos da térmica para a elétrica reduzimos três vezes o nosso consumo energético, referiu. "Até 2030 temos de construir cerca de 1000 gigawatts de renováveis por ano, isto é quatro vezes o que fizémos em 2020, o salto que isto representa!. E temos de ter no final 300 milhões de veículos elétricos (EV's) que é cerca de 20% do stock de veículos no mundo. Em 2040 temos de assegurar que a produção de eletricidade já não tem emissões de forma líquida e que 50% dos edificios existentes já foram melhorados para não ter emissões próprias".
Desafios gigantes mas realizáveis, na perspetiva do CEO da EDP Inovação. António Coutinho terminou com esta frase de Bill Gates: "Tendemos a sobrestimar o que fazemos em dois anos e a subestimar o que conseguimos fazer em 10". A revolução está em curso.