
"Ao mudar de um carro térmico para um elétrico reduzimos três vezes o consumo"

António Coutinho, responsável da EDP Inovação, falou do desafio que é acabar com os combustíveis fósseis em matéria de mobilidade e não só, numa entrevista à TSF e ao Dinheiro Vivo. "Se em 2023 dissermos que não há mais carros térmicos, só em 2038 teremos 100% de carros elétricos"
O responsável pela EDP Inovação nos últimos dois anos defende uma posição algo polémica: só com preços altos se pode realizar uma transição energética eficaz. "Os vulneráveis devem ser ajudados, mas temos de aproveitar os valores altos para acelerar a transição energética. Com preços altos damos um incentivo muito importante para a poupança de energia - até estruturalmente: ao mudar de um carro térmico para um elétrico reduzimos três vezes o consumo", afirmou numa entrevista à TSF e ao Dinheiro Vivo, publicada nesta segunda-feira.
António Coutinho, que na energética liderou as Renováveis nos Estados Unidos e integra a administração desde 2010, explicou os enormes desafios de acabar com os combustíveis fósseis, nomeadamente na área da mobilidade elétrica: "Cada carro a gasolina ou gasóleo que vendemos estará 15 anos dentro da frota, ou seja, se em 2023 dissermos que não há mais carros térmicos, só em 2038 teremos 100% de carros elétricos. E para dizer que em 2030 queremos que 30% dos novos carros sejam elétricos, significa que teremos de instalar 30 gigafactories na Europa - só para isso".
Até os próprios carregadores constituem um desafio adicional: o trabalho ou a falta de mão de obra suficiente. "A transição energética tem uma componente de trabalho bastante grande, porque tem uma natureza muito distribuída. A Agência Internacional de Energia indica que se vão criar 23 milhões de postos de trabalho adicionais com isto, mas só na Europa está projetado perder 26 milhões de população ativa até 2050". Por isso, o responsável pela Inovação na EDP acredita num futuro cada vez mais "faça você mesmo", com cada um de nós a montar os seus painéis solares ou carregadores em casa. "Ou seja, vamos ter de fazer diferente, inovar, automatizar, pôr as pessoas fazer as suas próprias instalações - hoje montamos os nossos móveis, se calhar vamos montar o painel ou carregador. Temos de tornar as coisas tão simples que qualquer pessoa consiga fazê-lo", afirmou na entrevista.
Defensor acérrimo das renováveis, António Coutinho lembra a importância que tem a independência energética de Portugal, conquistada através das fontes alternativas. "Nós em 1995 estaríamos na ordem dos 92% de dependência ao exterior, quase 50% da nossa balança comercial eram custos de energia, e fez-se uma aposta em usar o que conseguimos produzir a partir da água, do vento e do sol. Hoje estamos a 78%. Portanto, entre a eletrificação da economia e o aumento das renováveis vai aumentar-se brutalmente a autonomia energética portuguesa".
Se pensarmos no atual contexto da invasão da Ucrânia pela Rússia, e das consequências para vários países europeus da dependência energética da Rússia, as palavras do responsável pela EDP Inovação adquirem um significado ainda maior.
Rute Coelho