Bicicletas: Motivar a utilização exige abordagem holística

2022
29-09-2022

População tem que sentir benefício no uso deste meio de deslocação. Integração com transportes públicos, estacionamento seguro, e novos espaços urbanos cicláveis são alguns exemplos do que foi feito em Copenhaga, como atestou Mariane Weinreich.

Apesar do clima e dos frequentes dias de chuva e de frio em Copenhaga, na Dinamarca, o uso da bicicleta como forma de deslocação é hoje uma realidade. Apesar disso, Marianne Weinreich revela que a adoção da bicicleta não foi um sucesso imediato na cidade, mas que a estratégia adotada nos últimos anos, e implementada de forma gradual, já está a dar frutos. Atualmente, uma boa parte da população da capital dinamarquesa considera a opção de duas rodas como um elemento-chave nas suas deslocações. “Fizemos uma abordagem holística ao problema do uso da bicicleta e fomos bem-sucedidos”, salienta.

Na opinião da gestora de mercado na Ramboll Smart Mobility e Presidente da Cycling Embassy of Denmark, que marcou presença no Portugal Mobi Summit 2022, via zoom, uma das estratégias que as cidades devem adotar é começar por promover a utilização da bicicleta junto de grupos-alvo, como as crianças. “Se começarem desde cedo a conhecer as regras de segurança, enquanto viajam na cadeirinha na traseira da bicicleta, mais facilmente serão elas próprias utilizadoras no futuro”.

Outro passo importante passa, na perspetiva de Marianne Weinreich, pela sensibilização das empresas. Em primeiro lugar, defende, consciencializar os seus responsáveis dos benefícios para a saúde dos colaboradores, o que reduz as ausências ao trabalho por doença e garante um maior foco e concentração nas tarefas do dia-a-dia. Por outro lado, as empresas precisam de preparar os seus espaços para garantir lugares de estacionamento seguros, duches, zonas de lavagem para as bicicletas, etc, e este pode ser um fator diferenciador para estas organizações atraírem talento.

A abordagem a outros grupos, como as mulheres ou os idosos é também muito importante. “Criar soluções de segurança mais adequadas ao público feminino que, por norma, corre mais riscos na utilização das bicicletas, e dinamizar projetos que apoiem os idosos a manter-se ativos e a fazer uma utilização regular deste meio de transporte é também muito importante”, reforça. Em Copenhaga, por exemplo, alguns voluntários pedalam bicicletas adaptadas com cadeiras duplas à frente (um pouco ao género de um riquexó), onde transportam idosos. Este projeto permite, adicionalmente, fomentar o convívio entre diferentes gerações, “muito importante para o bem-estar dos mais velhos”, acrescenta a especialista.

Sentir o benefício na utilização deste meio de transporte é também, na opinião de Marianne Weinreich, um fator essencial para a população. “As pessoas têm de sentir-se beneficiadas”, diz. Na cidade de Copenhaga foram, por exemplo, criados vários espaços cicláveis novos, o que agradou esteticamente a todos e motivou uma maior procura por certas zonas da cidade, inclusivamente por parte dos turistas.

A criação de uma app que permite aos utilizadores verificarem quais os melhores caminhos para as suas deslocações, com uma funcionalidade que sugere as zonas onde existe menos tráfego, e locais de estacionamento seguros foram outras das ações do município de Copenhaga. Os estacionamentos foram colocados em zonas que não incomodam os outros transeuntes, e junto das paragens de autocarro e estações de comboio, para incentivar a utilização complementar de outros meios de transporte. As plataformas das estações de comboio foram igualmente redesenhadas para facilitar a entrada e a saída de bicicletas. “O casamento com os transportes públicos é fundamental para garantir alternativas”, conclui a responsável.

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