Custo do financiamento automóvel vai subir a reboque da inflação

2022
28-09-2022

A ameaça da inflação e a transição para a mobilidade elétrica são os principais desafios para os fornecedores de serviços complementares no setor automóvel, afetando transversalmente os segmentos do financiamento e dos seguros. Aquilo que parece certo é o aumento dos custos associados ao automóvel.

Abordar a mobilidade é cada vez mais uma questão de olhar também para a área dos serviços ‘satélite’ que rodeiam a utilização do automóvel, indo além da mera filosofia da propriedade dos veículos num mercado em profunda transformação.

No painel do Standvirtual dedicado a debater, então, em que medida é que setores como o dos seguros, financiamento e posse tenderão a mudar nos próximos anos, a ideia comum é que a área da mobilidade ruma para um caminho mais digitalizado, menos preocupado com a posse e mais interessado na redução de custos.

Essa é também a expressão-chave para se debater o setor da mobilidade, sobretudo num momento em que a inflação e o consequente aumento das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu (BCE) apontam para o aumento dos valores a pagar quer na aquisição de serviços e bens, quer no pagamento de prestações. Licínio Santos, CCO e Board Member da Cofidis, entidade especializada em financiamento, indica que será previsível o aumento do custo do financiamento do automóvel muito em breve.

Será uma realidade”, explica, “não só porque a taxa de endividamento máxima que o regulador permite, à data de hoje, é de 50%”, mas também porque se tornará efetivamente mais caro de obter o valor a financiar. “Se há um aumento da taxa diretora como tem acontecido desde junho até aqui, sabendo-se que há mais duas reuniões do BCE até ao final do ano, pode-se esperar que chegue ao final do ano perto dos 2% ou até já nos 2%, o que fará como que as mensalidades do crédito imobiliário, que é o que mais pesa no orçamento das famílias, tenha um peso superior ao que tem hoje. Efetivamente, é um exercício simples: se hoje temos um endividamento de 45% e uma mensalidade de 500€, ao passar para os 650€ mais facilmente chego ao limite de 50%, sendo mais difícil de obter e também mais caro, porque se o custo do dinheiro sobe, o reflexo será no encargo de todos os clientes”, afiança este responsável da Cofidis, que destaca, por outro lado, os esforços da companhia na questão da digitalização do negócio e a rapidez de resposta ao cliente.

O que desenvolvemos foi uma jornada ‘end-to-end’, totalmente digital, em que o cliente não tem qualquer tipo de esforço do ponto de vista da assinatura de um contrato, porque é tudo digitalizado”, argumenta, complementando que todos os esforços levados a cabo nos últimos três anos vão no sentido de “ir ao encontro da exigência do cliente, mas também trabalhar na área da sustentabilidade” com a redução drástica dos contratos em papel. De acordo com Licínio Santos, a poupança atinge um valor a rondar os quatro milhões de folhas de papel.

Também abordando o tema da inflação, Rui Gentil, Deputy Director da Mapfre Assisncia, confirmou o impacto já do aumento dos preços, ainda que revele algum otimismo moderado quanto ao assunto, tendo por base os dados já obtidos nos últimos meses.

Quando olhamos para os nossos parceiros e quando autorizamos custos de reparação, existe a confirmação de que a inflação esta a ter um efeito, refletindo-se no aumento da mão de obra e no aumento das peças. Mas, olhando para os nossos dados, vemos que há um efeito, mas não tanto quanto o esperado, o que acaba por ser um efeito positivo, esperando que, futuramente tenha algum reflexo no custo do sinistro”, aponta. Por outro lado, dando força à sua componente de extensão de garantia, a Mapfre Assistência pretende fazer do seu produto um tranquilizador.

O mercado ainda tem de acabar de se adaptar para perceber estes produtos de extensão de garantia de forma mais massificada. Ou seja, existe o conceito, as pessoas sabem que é importante, acrescentam confiança na compra do veículo, mas na área do retalho, os nossos parceiros queixam-se também que faltam mais soluções. Da parte da Mapfre, vamos tendo mais conhecimento e sabendo melhor o que o mercado precisa para apresentar um produto mais robusto, mais sólido, principalmente para o retalho nos veículos usados, onde está o nosso foco principal”, garante, reforçando a ideia de que o objetivo é sempre oferecer serviços que “tiram o ónus e a preocupação de custos com reparações, dando tranquilidade a quem comprou, mas também a quem vendeu”.

Na vertente dos seguros, André Figueiredo, Diretor de retalho da MDS, explica que “a distrbuição de seguros é um fator e geração de valor nas grandes concessões”, algo que o novo modelo de agência previsto por muitos construtores poderá abalar, mas que poderá não ser crítica no mercado dos veículos usados. “A nossa experiência diz-nos que o caso de vender seguros nas concessões é um ‘case study’ de sucesso. É a possibilidade de valorizar a marca de uma concessão com um produto de valor e diferenciador face à concorrência”, assegura.

A nova forma de viver o automóvel

No meio de toda a mudança energética e financeira do setor da mobilidade, a vertente comportamental é também um novo aspeto a ter em conta, com uma nova abordagem perante o automóvel, em muitos casos intimamente ligada à disseminação dos veículos elétricos.

Pedro Saraiva, CEO da Kinto Mobility Portugal, mostrou relativa satisfação pelo facto de existir hoje uma maior recetividade dos clientes particulares para novos modelos de vivência com o automóvel, mas indica que o mercado português ainda exibe cânones muito tradicionais, “em que as pessoas sentem que a viatura é efetivamente das pessoas. Noutro mercados, isso não acontece. Mas, há um efeito de evolão, que parece pequeno, mas já é muito significativo, sendo relevante porque já começa a derivar de alguma informação que existe e de ofertas que vão surgindo do próprio setor, que a Kinto também tem, com ofertas online de disponibilização de soluções de mobilidade que lhes permite obter uma solução de renting com todos os serviços incluídos”.

O responsável da Kinto destaca que o tipo de comportamento do consumidor português tem dois aspetos determinantes – o da cultura, que não se altera de forma rápida, e o da falta de uma infraestrutura integrada de mobilidade urbana e transporte público aliciante que permita utilizar soluções de mobilidade partilhada, como se fosse uma espécie de Air BnB. “Temos de ter isto em consideração e ter paciência para lhe dar a volta com muita informação e educação. As pessoas têm de perceber quais são as vantagens e desvantagens da utilização face à aquisição e depois fazerem o balanço e decidirem o que é melhor para eles”.

Exemplificando o potencial de benefício dos seus serviços, Pedro Santos refere o modelo ‘Kinto Flex’ que é, de forma simplificada, como um serviço de aluguer com todos os serviços incluídos, como a manutenção, etc”, que tem a particularidade de poder ser aplicado aos veículos usados, dando alguns passos no sentido da circularidade da economia dos automóveis. “Um veículo usado, por exemplo, que tenha estado 24 meses com um cliente empresarial é depois recondicionado e requalificado para que novos clientes (sejam privados ou empresariais) possam utilizá-la. Isto permite contornar a questão do tempo de espera por automóveis novos, mas também começar a alimentar uma certa economia circular do automóvel, que é algo que temos ideia que irá crescer com os elétricos, que são mais fáceis de recondicionar do que um veículo de combustão”.

A este respeito, não esconde que os elétricos trazem consigo “um nível de incerteza”, mas que a “utilização em vez da aquisição retira essa preocupação da incerteza da valorizão da viatura no final do contrato”. Adicionalmente, o custo médio de renting para um veículo elétrico é bastante mais caro do que o dos modelos de combustão, sendo este um fator que importa abordar para minimizar os custos.

Já os seguros são pouco influenciados pelos modelos elétricos, como explica André Figueiredo, da MDS, clarificando que, de forma geral, a diferenciação principal entre os seguros para elétricos e modelos de combustão incidem nas problemáticas acessórias, como a assistência em viagem quando se esgota a bateria, com táxi ou desempanagem incluídos, a proteção dos cabos de carregamento com capitais de 400 ou 500 euros e proteção do carregador doméstico. Já o seguro para a troca das baterias é um tema “ainda embrionário”.

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