
Empresas como agentes de mudança social

A proximidade com o consumidor e a adaptação às novas necessidades dão às empresas um papel determinante para o acelerar da transição energética.
Da energia à mobilidade passando pela habitação, as empresas atuam como elementos de aceleração na transição energética. No processo é essencial uma boa leitura das necessidades dos consumidores mas também das mudanças sociais para que a transformação aconteça de forma rápida mas sustentada. Estes foram alguns dos temas abordados no debate "Como é que as marcas podem promover mudança e transição", que reuniu no Portugal Mobi Summit Gonçalo Castelo Branco, diretor de mobilidade inteligente da EDP Comercial, Pedro Saraiva, CEO da Kinto Mobility Portugal, Susanne Hagglund, managing director da Volvo Car Portugal e Tiago Belo, managing partner da promotora imobiliária Solyd.
"A unidade de mobilidade nasceu em 2018 e começou com a procura de soluções concretas. Foi importante perceber as necessidades dos clientes e adaptar as soluções", afirmou Gonçalo Castelo Branco, dando como exemplo as parcerias formadas empresas de leasing e renting. O desenvolvimento de novas infraestruturas e a adapatção daquelas já existentes foi apontada como o principal desafio atual. Contudo, assumindo que 80% da transformação acontecerá em meio doméstico, o representante da EDP Comercial sublinhou a importância da existência de soluções públicas.
Por sua vez, Pedro Saraiva destacou a importância de pensar a transição "de forma global". Para o responsável da Kinto Mobility, a transição tem de acontecer diariamente, de forma consistente e não apenas num único vetor. E se para que a transição aconteça é fundamental a mudança de mentalidades, para Pedro Saraiva, às empresas cabe um papel chave nessa transformação. "Acreditamos que ao influenciar as empresas, estas vão influenciar o consumidor o que levará a uma transição mais rápida", defendeu. Como exemplo, deu as soluções de mobilidade partilhada, usada de forma consistente pelos suecos que vivem em grandes centros urbanos mas ainda pouco presente em Portugal. Não apenas pelas diferenças culturais mas também pela ausência de meios. "Se quisermos ter uma solução de car sharing no Cais do Sodré para as pessoas que fazem o percurso a partir de Cascais, é necessária uma rede que ainda não existe", alertou. "É uma questão cultural mas também tem a ver com o modo como pensamos o público vs privado. Do ponto de vista burocrático, ainda não estamos na fase em que seja fácil implementar estas soluções", disse.
Ainda assim, os vários intervenientes no debate concordaram que há mudanças que são transversais. "Hoje os carros são software sobre rodas e os consumidores são mais exigentes quanto à personalização: querem veículos mais adequados ao seu estilo de vida e aos seus valores", referiu Susanne Hagglund, para quem a Volvo tem de conseguir lidar com a dualidade de fazer negócio de forma tradicional ao mesmo tempo que lida com a inovação. Ao que se junta o desafio de se adaptar às expectativas das gerações mais novas. A representante da Volvo Cars lembrou que, ao contrário das gerações anteriores, a chamada 'geração Z' já não corre a tirar a carta quando completa 18 anos. "É uma geração mais preocupada com o custo de vida e com a sustentabilidade e isso também se aplica à mobilidade", assumiu.
Em 2025 ou 2026 a Volvo só terá à venda em Portugal carros elétricos. Mas ainda há muita desinformação do consumidor sobre o tema, assume, e há preocupações recorrentes dos consumidores. A saber: autonomia, pontos de carregamento e valor de retoma dos veículos elétricos.
A mudança sente-se também ao nível do imobiliário. "Há cinco anos ninguém nos perguntava pelo certificado energético do edifício. Em pouco tempo tudo mudou e desde a pandemia há muito mais preocupação com a eficiência energética, utilização de energias renováveis e existência de pontos de carregamento para veículos", assumiu Tiago Belo. "As pessoas estão mais preocupadas em ter casas eficientes e não casas inteligentes", sublinhou.
Gonçalo Castelo Branco destacou ainda a forma como empresas como a EDP podem intervir na mudança social. "Na EDP, 75% da energia que consumimos provém de fontes renováveis e temos o objetivo de alcançar a neutralidade carbónica em 2030. É um compromisso assumido como empresa que se estende aos nossos clientes", referiu. Para o diretor de mobilidade inteligente não restam dúvidas que a eletrificação é o caminho para descarbonizar a economia. "Cada vez que usamos um carro elétrico reduzimos a nossa dependência de combustíveis vindos do exterior - é uma opção que em Portugal se traduz em mais liberdade. Quanto mais contribuirmos para a descarbonização, mais contribuímos para a mudança nacional".