
“Evolução dos postos de carregamento não acompanha ritmo das vendas de veículos elétricos”

Portugal é o país europeu que mais demora a licenciar um posto de carregamento: 20 meses é o prazo médio. “A AnaÌlise de PoliÌticas de Promoção de VeiÌculos EleÌctricos na Europa", apresentado por António Lorena, partner da 3drivers, dá ainda conta de um parque envelhecido e carente de incentivos ao abate.
Um parque automóvel cada vez mais envelhecido e uma escassez de postos de carregamento para acompanhar a o ritmo de venda de veículos elétricos (VE). Os resultados do estudo da ACAP, intitulado “Análise de Políticas de Promoção de Veículos Eléctricos na Europa, apresentados por António Lorena, Partner da 3drivers, esta manhã, na Ub Criativa do Beato, no último dia da edição 2022 do Portugal Mobi Summit, da Global Media Group, revelam um mercado automóvel nacional ainda muito “cinzento” e carente de uma política de incentivos mais robusta.
O estudo apresentado resulta de uma atualização de outro realizado em 2021. E o cenário tem vindo a agrava-se, no que diz respeito aos objetivos de descarbonização, sendo certo, como destaca o estudo, que “a mobilidade sustentável é um dos eixos do combate à emergência climática”. Segundo explica António Lorena, os objetivos europeus para 2050 apontam “cenários para o setor dos transportes, mas não existe uma visão estratégica nem ações de médio-longo prazo para o setor”.
Com base na informação recolhida pela análise, para cumprir com os cenários do RNC2050, teríamos de ter um stock de VE ligeiros de passageiros de 30%”. Ou seja, 1,8 milhões de vendas anuais médias de VE (ligeiros de passageiros) até 2030” e teríamos de passar de 209 mil abates de veículos para 1,9 milhões” até esse mesmo ano.
Os postos de carregamento são outros dos pontos críticos, dado que “não estão a acompanhar a entrada de novos veículos eletrificados em circulação”. Se na Europa este é um problema identificado, em Portugal, cujo parque automóvel envelheceu de 12.9 anos para 13,5, entre 2021 e 2022, em média, é ainda “mais evidente esta separação”.
O estudo demonstra que existem países como França, Alemanha e Países Baixos, cuja aposta tem versado em incentivos para o carregamentos privados. E que em termos de postos por cada 100 quilómetros, Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer.
“A rede tem de ser melhorada”, diz António Lorena, revelando os vários problemas analisados pelo estudo. Desde logo, o preço. No nosso país, existe uma grande “variabilidade entre máximos e mínimos é muito elevada”, diz. “Pode não parecer um problema, mas acontece que isso é aproveitado para gerar muita contrainformação”.
Ainda ao nível da infraestrutura de carregamentos, António Lorena destaca um estudo da Masterplan que aponta os objetivos até 2030. E os números são elucidativos. Entre os países europeus, o número de postos existentes teria de ser multiplicado por 10 para
corresponder à evolução das vendas de VE.
De acordo com o mesmo estudo, o nosso país teria de licenciar 10 postos por dia, até 2030, para equilibrar os postos de carregamento com as vendas de VE. “Haveria essa possibilidade?”, questiona António Lorena. A resposta fica por conta de outro dado apresentado pelo estudo da Masterplan: “Portugal é o país europeu que mais tempo demora a licenciar um posto – um período de 20 meses”, aponta. Mais do dobro do tempo de Espanha, por exemplo.
A finalizar a sua intervenção, António Lorena reforça a importância do incentivo ao abate, um dos pontos mais críticos, segundo o estudo, propondo ao Governo “um papel mais ao ativo na disseminação de informação sobre os benefícios económicos da mobilidade elétrica, nomeadamente os benefícios económicos e ambientais associados, bem como os relacionados com os aspetos técnicos – como, por exemplo, a visa útil da bateria, os custos de reparação e autonomia”, sublinha.
Como notas finais, o estudo deixa bem patente a necessidade de “reforçar os incentivos aos veículos elétricos no Fundo Ambiental, seja em número, valor ou tipologias”, apela à “simplificação da entrega dos incentivos fiscais”, a uma “harmonização e reforço dos incentivos indiretos” e ainda a uma “maior previsibilidade e transparência nos preços finais dos carregamentos”.