
Há uma corrida aos fundos para produzir hidrogénio em Portugal

Há mais candidaturas do que verbas disponíveis dos fundos europeus para a produção de hidrogénio em Portugal. Cascais, que quer construir uma estação de produção de H2, critica o Governo por não ter um calendário definido para uma rede nacional
Em Portugal está a acontecer uma autêntica corrida aos fundos europeus por parte de empresas que se querem lançar na produção de hidrogénio, confirmou o Portugal Mobi Summit com dados oficiais do Ministério do Ambiente e da Ação Climática (MAAC), ao ponto de os pedidos ultrapassarem o total de verbas disponíveis, que totalizam 40 milhões de euros. Mas esta energia verde ainda não é produzida e distribuída no nosso país nem há “calendário definido” para a implementação da rede nacional de produção e abastecimento de hidrogénio. Uma indefinição que preocupa pioneiros no uso deste combustível como é o caso da autarquia de Cascais, que através da empresa municipal Cascais Próxima, operador de transporte público rodoviário de passageiros, adquiriu em julho de 2021 os seus primeiros dois de um total pretendido de dez autocarros de transporte público urbano movidos a hidrogénio.
Agora Cascais ambiciona construir uma estação de produção, armazenagem e abastecimento de H2 (HRS) no âmbito de um concurso público já lançado, como forma de dar resposta imediata à necessidade de abastecimento dos autocarros de transportes públicos movidos com esta tecnologia, já adquiridos pela autarquia. “Ainda não há este tipo de combustível a ser produzido e distribuído em Portugal, apesar da Estratégia Nacional para o Hidrogénio lançada pelo Governo, a qual não refere nem estipula nenhum mapa nem um calendário para a implementação da rede nacional de abastecimento”, aponta Rui Cordeiro, diretor do Gabinete de Marketing, Comunicação e Imagem da Cascais Próxima.
Mesmo com essa indefinição do Governo, a verdade é que entre os investidores privados não faltam interessados na corrida aos fundos do POSEUR (Programa Operacional de Sustentabilidade e Eficiência no uso dos recursos), onde se enquadram os apoios a projetos com energias renováveis e “verdes”, entre as quais o hidrogénio. Atualmente, os pedidos de financiamento ultrapassam as verbas disponíveis, que totalizam 40 milhões de euros.
“Do aviso lançado no âmbito do POSEUR, destinado a apoiar projetos de produção de gases de origem renovável para autoconsumo e/ou injeção na rede com uma dotação total de 40 milhões de euros resultaram 12 projetos com um investimento total de 84 milhões de euros, correspondente a uma capacidade instalada para produção de gases renováveis: 33 MW (23 MW de hidrogénio) e onde constam duas estações de abastecimento de H2”, respondeu o MAAC. No âmbito dos projetos apoiados através do POSEUR não constam projetos de autarquias.
Há uma nova dinâmica em torno da indústria de H2 em toda a Europa, assume a tutela, e Portugal está no topo dos países com condições para contribuir para esse mercado e para as metas europeias de atingir a neutralidade carbónica em 2030. “Os projetos apoiados através do POSEUR representam uma redução anual de 45 mil toneladas de dióxido de carbono emitidas”.
A corrida ao hidrogénio também acontece no pacote gigantesco dos fundos do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) que na sua componente C14 – Hidrogénio e Renováveis – tem uma dotação total de 185 milhões de euros e pretende alcançar 264MW de capacidade de produção de gases renováveis. Também nesta vertente do PRR para promover a transição energética, os investimentos propostos nas candidaturas são quase o dobro do total de fundos disponíveis. “O 1º aviso do PRR foi lançado a 28/09/2021 com uma dotação de 62 M€ e o prazo para apresentação das candidaturas terminou a 18/02/2022, tendo sido rececionadas 40 candidaturas, associadas a um investimento total de 380 M€, sendo 35 delas para a produção de Hidrogénio. Decorre agora o processo de análise destas candidaturas”, adiantou o Ministério do Ambiente e da Ação Climática. Esses 35 projetos de H2 “iriam representar uma redução de 176 mil toneladas” de dióxido de carbono.
Sines será o “hub do hidrogénio verde”
O Governo garante que “o desenvolvimento de uma indústria em torno do hidrogénio verde já é uma realidade em Portugal com empresas nacionais a movimentarem-se para criarem valor dentro e fora do país, contando já com vários projetos e iniciativas, de pequena e média escala”. Dados preliminares do MAAC apontam para “um investimento total a rondar os 8 mil milhões de euros em mais de 70 projetos de hidrogénio renovável já identificados e localizados um pouco por todo o país, com destaque para Sines. Prevê-se uma capacidade instalada superior a 3 GW para a produção de H2 e uma produção que pode superar as 200 mil toneladas de hidrogénio”.
Aparentemente, Portugal tem condições para vir a ser um dos líderes europeus no mercado das energias renováveis.
“Com as atuais infraestruturas, como por exemplo o porto de águas profundas de Sines e a disponibilidade de vastos e diversificados recursos endógenos renováveis, temos todas as condições para ser uma referência na produção, consumo e exportação de hidrogénio verde. Será igualmente uma oportunidade para inovar e desenvolver nas tecnologias e produtos, em estreita sinergia com a indústria portuguesa. Posicionar o porto de Sines como um importante hub de hidrogénio verde, não só promovendo uma aplicação integrada dos vários elementos associados à cadeia de valor, como permitindo a exportação para o Norte da Europa e para outros países e regiões”, adiantou o MAAC.
Cascais focada na produção e na mobilidade
A estação de produção, armazenagem e abastecimento de hidrogénio (HRS) que se pretende implementar no concelho de Cascais “vem na sequência de um concurso público na modalidade conceção/construção, entretanto já lançado, e será uma infraestrutura que irá permitir além da produção e armazenamento de energia a partir de fontes renováveis, a utilização de veículos ligeiros, de transporte e de autocarros de passageiros zero emissões, movidos eletricamente por baterias carregadas a partir da rede ou por energia elétrica gerada por célula de combustível a partir do hidrogénio”, respondeu Rui Cordeiro, da empresa municipal Cascais Próxima.
Como explicou, a HRS será constituída por um módulo de produção de hidrogénio, a partir do processo de eletrólise [que permita a obtenção mínima de 389 kg de hidrogénio verde (pureza mínima de hidrogénio de 99,97], módulos de armazenagem de hidrogénio de baixa pressão; módulo de armazenagem para abastecimento de veículos pesados [para mais tarde abastecer a uma pressão de enchimento de 350 bar]; módulo de armazenagem para veículos ligeiros [para mais tarde abastecer a uma pressão de enchimento de 700 bar],unidades dispensadoras de hidrogénio para veículos ligeiros e pesados e unidades de arrefecimento de hidrogénio para o abastecimento de veículos ligeiros de acordo com as normas existentes.
Em julho de 2021 foi autorizada a criação de 2 novas linhas de transporte publico, a M43 Cascais-Guincho (circular) e a M44 Cascais-Quinta do Pisão (circular), tendo estas linhas iniciado a operação em 13 de agosto e 10 de setembro respetivamente e têm como principal característica a utilização de autocarros elétricos com pilha de hidrogénio.
Desde agosto de 2021 e até ao final de Abril de 2022, com a entrada em operação dos dois autocarros, foram percorridos cerca de 59.000 quilómetros em serviço público, alcançando uma redução de cerca de 50 toneladas de CO2.
Estes valores podem traduzir-se numa redução da pegada carbónica na ordem de 4 kg de CO2Eq/passageiro, segundo dados da Cascais Próxima.
Rute Coelho