
Nações africanas querem aumento da produção dos combustíveis fósseis

Na cimeira do clima das Nações Unidas, em novembro, os líderes africanos vão anunciar que precisam do acesso às suas reservas de petróleo e gás, apesar do efeito que isso terá sobre o aquecimento global e nas metas de descarbonização
A Cop27, a cimeira do clima das Nações Unidas, será o palco para os líderes africanos pressionarem para investimentos massivos nos combustíveis fósseis em África, segundo documentos a que o jornal britânico The Guardian teve acesso.
No entanto, novas explorações de gás e das vastas reservas de petróleo em África tornariam praticamente impossível ao mundo limitar o aquecimento global a 1.5 graus celsius acima dos níveis pré-industriais.
Mas há novos fatores que entraram na equação e que podem ajudar a pretensão africana, como a guerra na Ucrânia, que criou uma crise de fornecimento de gás. Os países ocidentais, nomeadamente alguns Estados membros da União Europeia, já sugeriram que apoiariam um maior investimento no gás africano para se poderem abastecer por essa via sem precisar da Rússia.
O The Guardian teve acesso a um documento técnico preparado pela União Africana - que engloba a maioria dos Estados africanos - para a “segunda sessão extraordinária do comité técnico especializado em transportes, infraestruturas transcontinentais e inter-regionais e energia”, uma reunião de ministros da Energia que decorreu por videoconferência de 14 a 16 de junho.
O documento indica que muitos países africanos são a favor de uma posição comum que informará da sua posição de negociação na cimeira climática Cop27 da ONU, agendada para novembro deste ano no Egito, e que implicará pressionar por uma expansão da produção de combustíveis fósseis em todo o continente africano.
O texto é claro: “No curto e médio prazo, os combustíveis fósseis, especialmente o gás natural, terão que desempenhar um papel crucial na expansão do acesso à energia moderna, além de acelerar a produção de energias renováveis”.
Os Estados membros da União Africana voltaram a reunir-se na primeira semana de agosto, em Adis Abeba. Argumentaram que a África deve poder beneficiar das suas reservas de combustíveis fósseis, como os países ricos já fizeram, e que os Estados desenvolvidos, em contrapartida, são os que devem assumir a liderança nos cortes acentuados das suas emissões de dióxido de carbono.
Os receios dos ativistas climáticos
Mas esta posição dos estadistas africanos promete gerar muita polémica. Ativistas ambientais de todo o continente temem que a exploração de gás e petróleo em África bloqueie as metas climáticas globais, impeça o desenvolvimento de energia renovável em África e, em vez de ser usada para o benefício das pessoas comuns, enriqueça as corporações multinacionais, investidores e a elite de alguns países.
Mohamed Adow, diretor do thinktank Power Shift Africa, disse ao The Guardian que seria um erro a África optar por combustíveis fósseis em vez de seguir diretamente para o investimento nas energias renováveis. “A África é abençoada com energia renovável abundante, tanto no sol como no vento. A África não deve ser algemada a combustíveis fósseis caros por décadas”, sublinhou Adow.
Lorraine Chiponda, coordenadora da Africa Coal Network, também fez uma declaração na mesma linha crítica: “A perspectiva de que os líderes africanos estão a pressionar por desenvolvimentos e investimentos no gás natural é esmagadora e imprudente, dado os impactos climáticos que ameaçam a vida de milhões de pessoas em África, considerando o agravamento das secas, fome, inundações e ciclones recorrentes. Os projetos de combustíveis fósseis não resolveram a pobreza energética em África, onde 600 milhões de pessoas ainda vivem em pobreza energética, nem trouxeram justiça socioeconómica ao povo africano”.
A Agência Internacional de Energia alertou, no ano passado, que nenhum novo desenvolvimento de combustíveis fósseis poderia ocorrer se o mundo ficasse dentro de 1,5°C dos níveis pré-industriais. O clima extremo recente, incluindo ondas de calor e incêndios florestais na Europa e na América do Norte, intensificou os temores de que a crise climática está a escalar mais rápido do que o previsto.
Os países africanos também estão entre os mais prejudicados pelos impactos da crise climática. A seca já atinge uma grande faixa do Corno de África e milhões de pessoas “marcham em direção à fome”, alertou o Programa Mundial de Alimentação da ONU.
Mas o aumento do preço do gás, impulsionado pela guerra na Ucrânia e a recuperação da pandemia da Covid, estimulou muitos países a ver uma potencial salvação nas reservas inexploradas que restam em África. Uma pesquisa do The Guardian no início deste ano revelou dezenas de “bombas de carbono” – reservas de combustível fóssil que, se exploradas, poderiam colocar as metas climáticas globais fora do alcance.
Fátima Ahouli, coordenadora regional da Climate Action Network Arab World, disse que os líderes que ambicionam uma nova exploração dos combustíveis fósseis estão a contribuir para uma nova forma de colonialismo. “O apelo por mais exploração de combustíveis fósseis em África é impulsionado pelos mesmos países famintos que só veem a África como uma mina de ouro”, criticou.
O gás natural africano será um dos focos das negociações climáticas da Cop27. A União Europeia indicou que apoiaria a produção de gás em África, porque procura urgentemente novas fontes desta energia após a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin e as ameaças subsequentes às exportações de gás da Rússia, conclui o artigo do The Guardian.
Mary Robinson, presidente do grupo Elders de ex-estadistas e líderes empresariais de topo, também opinou sobre a matéria, ao fazer uma declaração polémica ao The Guardian no início deste ano na qual defendeu que os países africanos devem ser autorizados a usar o seu gás, embora para uso doméstico, para eletricidade e como combustível de cozinha limpo, nunca para exportação para a UE. Cerca de 580 milhões de pessoas na África ainda não têm acesso à eletricidade e energia moderna.
Mohamed Adow, do Power Shif Africa, entende que a exploração de gás em África apenas prenderia os países a um futuro carbónico. Adow apelou a que os Estados ricos disponibilizem fundos e apoio para que os Estados mais pobres passem para as energias renováveis. “Há muitas oportunidades para energias renováveis em África, mas os países precisam de ajuda para construir a infraestrutura.”
Cerca de 580 milhões de pessoas no continente negro ainda não têm acesso à eletricidade e energia moderna.
Rute Coelho