
Praças abertas e urbanismo táctico: como pequenas intervenções e boa vontade estão a mudar a cara de Milão

Steffano Ragazzo falou na manhã do segundo dia do Portugal Mobi Summit sobre “Praças abertas e urbanismo tático”, mostrando o que tem sido feito na cidade de Milão nos últimos três anos e como o urbanismo tático pode ajudar a transformar a forma de as pessoas viverem nas cidades de uma forma rápida e não muito cara.
O programa Praças Abertas faz parte da visão para Milão 2030 e pretende mudar a forma como se vive nos 88 bairros da cidade, uma cidade que, segundo Steffano Ragazzo, foi feita a pensar nos automóveis.
“Existe uma necessidade de mudança para que possamos melhorar a nossa qualidade de vida no quotidiano. Vamos começar a pensar no espaço público como um bem público. Como é que podemos atingir esse propósito? A nossa visão é obviamente para daqui a dez anos, para 2030, mas dispomos de tempo suficiente, de dinheiro suficiente para alcançar isso em dez anos?”, questionou o arquiteto e consultor em espaço público da AMAT-Agência para a Mobilidade, Ambiente e Território de Milão.
E é aí que surge o urbanismo tático. “É um conceito que tem vindo a divulgar-se nos últimos anos, é um processo completamente reversível, pode levar poucos meses, mas vamos ter presente que o urbanismo tático é um passo que pertence a um processo muito mais longo”, explicou.
O primeiro espaço em Milão onde foi aplicado este conceito de urbanismo tático foi a Piazza Dergamo. “Temos o primeiro momento em que era um parque estacionamento e depois já vemos, num segundo momento, que havia pessoas num espaço onde anteriormente havia carros. Portanto, existe uma clara melhoria, em termos de eficácia de custos funciona também”.
Estas mudanças de urbanismo tático passam por, por exemplo, pintar de uma forma atrativa o chão de asfalto onde antes passavam carros, colocar mobiliário urbano, árvores, flores ou arbustos em canteiros, pois a plantação de árvores no solo demora muito tempo, e pouco mais. “Se nós conseguirmos atingir sucesso, enfatizando e trazendo cor e mostrando a mudança, isto vai ser bem recebido por pessoas que à partida possam ser um pouco cépticas relativamente à identidade do espaço. Estamos a falar deste espaço, asfalto, pavimento, mas desde que consigamos criar e transformar a paisagem, então isso poderá melhorar certamente a qualidade do espaço”, referiu o também cofundador da Orizzontale.
Estes processos têm sido levados a cabo pelo município de Milão, mas muitas vezes em parcerias com associações ou parceiros comunitários, que se encarregam da gestão e manutenção dos espaços, da organização de eventos, etc. “Quando se cria um espaço, as pessoas começam de imediato a utilizá-lo. Os espaços públicos são espaços onde é possível conhecer e cruzarmo-nos com estranhos, é um espaço de democracia. Não existe qualquer outro espaço em que as diferenças possam ser perfeitamente coexistentes e, portanto, são um garante também de comunidade e de democracia”.
O envolvimento dos cidadãos nestes processos de mudança é muito importante, pois “quando envolvemos as pessoas na transformação dos espaços públicos empoderamos essas pessoas, elas passam a pertencer a essa transformação, as pessoas preocupam-se com o espaço, tomam conta dele, as pessoas começam a sentir-se parte dessa transformação”, sublinhou Steffano Ragazzo.
O projeto-piloto destas praças abertas ocorreu em 2018 e no ano seguinte arrancou num formato mais alargado. “Vou ser muito honesto, eu esperava no máximo cinco, dez candidaturas, mas realmente ficámos muito surpreendidos com a quantidade de candidaturas. Recolhemos muitas ideias, e após este processo de candidatura pública, recebemos 65 candidaturas e implementámos 38 projetos”, confessou o arquiteto italiano, voltando a recordar que os principais objetivos do projeto Praças Abertas são “o replaneamento dos bairros, melhorar a qualidade e segurança dos residentes, peões e ciclistas, transformar os espaços públicos existentes e tentar criar uma nova forma de gestão de espaços públicos”.
Estes 38 projetos de Praças Abertas e urbanismo tático estão bastante dispersos pela cidade de Milão, mas “o mais importante é que em três anos um em cada dois milaneses tem uma praça a cerca de dez minutos da sua casa, oitocentos metros”. No total, estamos a falar de 0,1% da área da cidade. “Claro que seria bom trabalhar com orçamentos muito mais generosos e mobiliário muito melhor. Mas em termos de melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, conseguimos atingir este objetivo. Não é assim tão difícil, não se trata de mobiliário muito sofisticado, são apenas pequenas intervenções e boa vontade”.
“Vamos tentar avançar rapidamente e uma abordagem tática para uma abordagem permanente. É importante fazer isso, que haja uma manutenção de mobiliário, que as plantas sejam regadas, que haja um bom processo de manutenção. E também pensar em termos da viabilidade e da qualidade do espaço para ser utilizado para andar, a capacidade pedonal do espaço”, rematou Ragazzo, acabando a sua intervenção com alguns slogans: “as ruas são espaços públicos, os espaço públicos são para as pessoas e as pessoas constroem comunidades”.
Ana Meireles