Carlos Moedas: "O desafio da mobilidade também passa por urbanismo e habitação"

2023
22-09-2023

Presidente da Câmara de Lisboa defende que as cidades têm de ser mais flexíveis e que as soluções para combater as alterações climáticas devem ser construídas com as pessoas sem as onerar demasiado. Os problemas de habitação acabam por dificultar a mobilidade e agravar a pegada carbónica.

Urbanismo flexível, habitação na cidade, desenhar soluções com as pessoas e que não as onerem. A mobilidade também se faz por aqui, assegurou Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, na manhã desta sexta-feira, na sessão de boas-vindas da Cimeira Portugal Mobi Summit 2023, que decorre na capital portuguesa.

“O desafio da mobilidade passa pelo urbanismo, pensarmos no que queremos que a cidade seja”, explicou o edil, sublinhando que deve haver “flexibilidade” para adaptar as cidades à nova realidade (uma escola à noite pode ser um teatro, um espaço de ensaio, de convívio, exemplificou) e que as mudanças devem ser pensadas em conjunto e não “cada um na sua caixinha”, numa altura em que é essencial combater as alterações climáticas.

A habitação é outro pilar fundamental, pelo que é preciso investir na área. Em Lisboa, disse Carlos Moedas, nos últimos dois anos, a câmara assinou contratos de habitação no valor de 560 milhões de euros. “Mas não vamos ter casas amanhã”, por isso “foi criado um programa para os que não são de lisboa e não conseguem pagar renda”, como professores e polícias, estando atualmente cerca de 800 pessoas a receber ajuda, acrescentou.

Para Moedas, “se todos viverem fora” da cidade e tiverem de entrar todos os dias em Lisboa, “não há solução para a mobilidade”.

Evitar fricções e custos

Outro desafio é o da fricção social, continuou o edil, explicando que “há um sentido de urgência para resolver o problema das alterações climáticas”, mas isso pode levar a “decisões erradas” porque são tomadas à pressa e não são feitas com as pessoas. As soluções, insistiu, “têm de ser trabalhadas com as pessoas” e não colocando quem anda de carro, de trotinete ou de bicicleta, uns contra os outros.

Nesse sentido, a câmara criou um Conselho de Cidadãos para trabalhar nas soluções com a população. Também tem trabalhado com as empresas, tendo havido uma redução no número de trotinetes (de 18 mil para 8 mil), diminuição da velocidade a que circulam (de 30 para 20 quilómetros por hora) e criação de lugares para as estacionar. Outras medidas nesta área passam por tornar a rua da Prata pedonal e tirar os carros da baixa da cidade.

Mas, se o incentivo para mudar a mobilidade e as alterações climáticas “não estiver no bolso” das pessoas, a maior parte não mudará, acredita Moedas. E dá exemplos. Quando se lançaram os transportes públicos gratuitos na capital, a procura duplicou. Hoje há 90 mil pessoas com passe gratuito (20% da população de Lisboa), metade das quais antes não tinham passe.

Não se pode fazer a transição climática apenas pedindo para “serem boas pessoas”, tem de haver medidas que “tragam vantagens monetárias às pessoas”, insistiu o presidente da Câmara de Lisboa, explicando que medidas como a gratuitidade dos transportes públicos, numa altura de dificuldades para as famílias, são “importantes” e permitem mudanças.

E para dar o exemplo, Carlos Moedas chegou à cimeira de bicicleta e lembrou logo no início que Lisboa pretende liderar nesta área, sendo umas das 100 cidades escolhidas na União Europeia para ser neutral em carbono até 2030.

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