Dan Hill: “É rua a rua que se desenham as cidades do futuro”

2023
30-06-2023

Dan Hill, diretor da Melbourne School of Design explica como tudo está em transformação no urbanismo, onde triunfa uma nova visão centrada na rua, no cidadão, na biodiversidade e na desaceleração do ritmo de crescimento. “É preciso ver a cidade do outro lado do telescópio”, diz, em entrevista Portugal Mobi Summit.

No que respeita à mobilidade sustentável "estamos a avançar e a andar para trás ao mesmo tempo". Esta é a opinião do perito em urbanismo Dan Hill, que é também diretor da Escola de Design da Universidade de Melbourne, na Austrália, e uma das figuras mais influentes do setor a nível mundial. Segundo explica Hill, quando alguém compra um carro, tende a ficar com ele por mais de uma década. "Ora, o carro mais popular vendido na Austrália é um SUV, um veículo de grandes dimensões", que gasta muito combustível fóssil. Ao mesmo tempo, as cidades estão a experimentar novas formas de mobilidade, "há projetos significativos um pouco por todo o lado". Barcelona, Bogotá, Paris, Estocolmo são bons exemplos, "mas os sistemas em si não estão a mudar o suficiente".

A ideia de que damos dois passos para a frente e um para trás é a mensagem essencial de uma entrevista de Dan Hill conduzida pelos curadores da Portugal Mobi Summit, Paulo Tavares e Charles Landry. O entrevistado foi durante anos diretor de design da Agência de Inovação do Governo sueco, Vinnova, responsável por experiências de design consideradas no setor como arrojadas. Hill colaborou em projetos de urbanismo na Finlândia, Reino Unido, Austrália e Holanda, sempre em torno da mesma questão de redesenhar as cidades e favorecer a qualidade de vida dos seus habitantes.

Na entrevista, o professor Dan Hill explicou a sua ideia da cidade de um minuto, no fundo uma tentativa “de brincar” com o conceito da cidade de 15 minutos que está a ser aplicado em Paris. A ideia parisiense implica o planeamento da cidade levando em conta um tempo máximo de 15 minutos para as pessoas acederem aos principais equipamentos, como centros de saúde, empregos, parques ou escolas. O tema está a ser intensamente discutido e houve críticas: a iniciativa beneficiava os ricos ou eram criadas bolhas onde os cidadãos ficavam de alguma maneira encerrados. Isto levou Dan Hill a tentar ver o problema, nas suas palavras, não "de cima para baixo", mas "do outro lado do telescópio", levando em consideração sobretudo o ponto de vista do cidadão.

Na perspetiva de um minuto, diz Hill, "existe uma relação muito mais íntima com a cidade, geralmente na rua ou no bairro; nós conhecemos o homem que gere o bar do outro lado da rua, a mulher da creche; conhecemos os nomes dos nossos vizinhos, podemos desafiar o vizinho do lado a plantar tomates no canteiro em frente à casa. Depende mais de nós e pode ser tudo auto-organizado". Para o urbanista, as cidades são moldadas pelas pessoas que habitam nelas. "Ninguém quer plantar tomates a 15 minutos de distância" de uma viagem de bicicleta, "é do outro lado da cidade, outro bairro, vivem ali pessoas desconhecidas".

Na opinião do urbanista devemos refletir em várias escalas urbanas, talvez uma de 30 minutos, outra de 60 minutos, "também temos a de um minuto, tudo organizado em ruas e bairros". A de 60 minutos, por outro lado, está além da iniciativa dos residentes, tem a ver com o estádio nacional ou a rede de metropolitano: "Aí, a nossa intervenção é por representação, votamos por um presidente de câmara. As decisões são lentas, enquanto a de um minuto envolve a participação direta. Apoio a ideia da cidade de 15 minutos, mas há outras escalas em que podemos pensar", diz o académico.

Dan Hill esteve envolvido em projetos na Suécia, visando transformar as ruas em locais de atividades comunitárias e movimento mais sustentável. O conceito da agência sueca para a inovação, Vinnova, começou em três cidades e há 25 que querem aderir. Trata-se, no fundo, de intervir em todos os espaços da rua, mas com elevada participação dos residentes, confrontar os cidadãos com uma pergunta simples: o que querem que seja este lugar?

"O que fizemos em prática foi ver a rua como a unidade e conversar com os vizinhos", explica Hill. "Mas a rua é também gerida pelo município, pela região responsável pelos transportes, pelo governo. Podemos pegar em qualquer local e todos os três níveis do governo estão envolvidos. Este não era tanto um problema de quem controlava o projecto, mas uma questão de conseguir envolver o máximo de intervenientes. E se alguém estava a gerir, eram as pessoas que viviam nessa rua. Estamos a falar de 40 mil quilómetros de ruas. Começámos onde havia escolas e pusemos canetas na mão de crianças de seis anos, andam por ali todos os dias, são os peritos, e gostámos que fossem essas crianças a fazer os desenhos. É difícil argumentar quando muitas pessoas participam. Tivemos 75% de aprovação em Estocolmo: todos diziam que, dada a escolha, queriam menos estacionamento para carros, mais verde e mais espaço social".

A unidade básica

Em textos sobre o tema, o urbanista e académico tem procurado explicar a questão da mudança de mentalidades e da escala do pensamento. O exemplo dos parques parece evidente.

Nos séculos XIX e XX, as cidades apostaram sobretudo em parques de grande dimensão. As experiências em que Dan Hill esteve envolvido, sobretudo Estocolmo, procuraram um novo modelo, sendo a rua a unidade básica e a árvore um elemento definidor da paisagem. A rua permite o recreio, o comércio, a comunidade. A cidade transforma-se numa rede de parques interligados, com biodiversidade, convívio e cultura.

Por outras palavras, a cidade está à saída de casa, os parques deixam de ser um problema alheio, deixa de haver a necessidade do carro individual, a mobilidade torna-se mais coletiva. Este é um dos elementos comuns às transformações urbanas em curso pelo mundo: menos automóveis, mais espaço social, mais natureza.

Reconhecer que as ruas são a unidade básica de uma cidade muda a perspetiva de quem planeia o tecido urbano e pode originar soluções com impacto nos padrões da vida das pessoas. Na opinião de Dan Hill, as cidades são sobre cultura. A engenharia e a gestão do tráfego continuam a ser importantes, mas não são o cerne. As decisões sobre as cidades passam a integrar perguntas como 'o que é uma boa rua? E para quem?'. Em vez de pensarem numa forma de meter mil carros num espaço, os urbanistas passam a refletir sobre a mudança de modelos mentais e, nas palavras do académico, "na forma de redesenhar as condições que produzem uma rua". O planeamento e a gestão das cidades implicam soluções diversas respeitando a cultura, mas também enriquecendo a sociedade.

Na entrevista à Portugal Mobi Summitt, o designer identifica algumas tendências profundas e desafios que todas as cidades partilham: "Clima, biodiversidade justiça social, coisas que devem levar-nos a reconsiderar o nosso padrão de desenvolvimento". Na sua opinião, é preciso integrar a questão das emissões de carbono, mas também o uso da terra e a perda de biodiversidade. A política de habitação precisa de ser radicalmente alterada.

"Temos de reconhecer que a maneira como fazemos Melbourne ou Lisboa tem impacto em Manila ou no Paquistão. Precisamos de trabalhar com um pensamento de escala sistémica global, de que tudo está ligado, depois refletir isso na ação no terreno. Estas são as tendências a que volto sempre".

As pessoas não ganham súbita consciência dos desafios ambientais, diz, não fazem as contas e, de repente, decidem vender o carro. "Não funciona assim, tem de ser participado", explica Hill. E o urbanista dá um exemplo australiano para sublinhar o argumento, sobre os conhecimentos dos indígenas daquele país, comunidades com 70 mil anos de história que passaram por várias alterações climáticas e têm conhecimento profundo da terra e do seu uso.

Outro exemplo: Tóquio. "O estacionamento nas ruas é proibido desde 1965, não existe, há ruas incrivelmente bonitas. Os cidadãos fazem a cidade de um minuto, pois não há automóveis parados e as pessoas aproveitam as bicicletas. Enfim, cidades em todo o mundo estão a explorar as suas histórias e todas se movem na mesma direção, mas cada uma delas faz de maneira diferente".

É preciso desacelerar

As cidades têm de desacelerar, explica o académico. Em 2020, durante a pandemia, Hill publicou uma série de textos influentes, a que chamou Slowdown Papers. Na sua opinião, a pandemia era a expressão de crises mais profundas de "clima, saúde, justiça social, e de como estas estão ligadas entre si, todas transmitidas pelas escolhas que fazemos nas nossas infraestruturas, lugares, tecnologias e culturas políticas".

Como Hill explicava num texto de setembro de 2020, a aceleração da sociedade no século XX deu origem a infraestruturas de distribuição como estações de serviço, garagens ou serviços de seguros de veículos, mas essa cultura está a recuar e será substituída por bairros diferentes, nos quais haverá escritórios comunitários, bibliotecas e infraestruturas sociais. Novas profissões e serviços podem desenvolver-se nos bairros desacelerados, pequenos negócios locais, especialistas de tecnologia, consultores, designers, trabalhos da área da saúde e do bem-estar, economias descentralizadas.

Questionado sobre o impacto dos Slowdown Papers, Dan Hill disse que estes textos foram uma reflexão sobre os confinamentos: "Precisamos de desacelerar para reduzir as emissões de carbono, para aumentarmos a sensação de que estamos uns com os outros, para reconhecermos que isto é tudo um sistema interligado, para percebermos que há outros sistemas de conhecimento, com diferentes conceitos de tempo. Temos de desacelerar na população. Os sistemas económicos baseiam-se todos em crescimento, crescimento, crescimento, mas esta é uma oportunidade para reconstruirmos o mundo de uma maneira mais equitativa e sustentável".

"Tomamos decisões por cinco ou seis décadas e, nesse período, não pode haver um crescimento contínuo ao ritmo atual", explica Hill. No fundo, o especialista defende que as sociedades contemporâneas possam crescer de forma mais lenta e orgânica, um pouco como acontece com as florestas: "Elas não crescem de forma a destruir tudo à volta, mas nós temos crescido dessa maneira destrutiva". É uma questão de equilíbrio, de crescer de forma regenerativa, conclui o urbanista.

Luís Naves

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