Dinamarca lança projeto de armazenamento de dióxido de carbono

2023
16-07-2023

Técnica do Greensand é dispendiosa e criticada pelos ambientalistas, mas por capturar CO2  promete ser uma solução para reduzir o impacto das alterações climáticas.

A Dinamarca tenciona ser o primeiro país europeu a retirar da atmosfera mais dióxido de carbono do que aquele que será emitido em cada ano. Esta ambição dependerá do êxito do projeto Greensand, um consórcio internacional que obteve em junho as necessárias certificações de segurança para instalar uma tecnologia ainda experimental. A ideia é injetar a alta profundidade o dióxido de carbono capturado em diferentes países. O gás é liquefeito, transportado e, finalmente, armazenado em velhos poços de petróleo improdutivos, que se encontram 1800 metros abaixo do fundo do Mar do Norte, numa zona a 200 quilómetros de distância da costa dinamarquesa.

O projeto foi lançado em março e é o primeiro do género a ser concretizado com elevado nível de cooperação internacional e apoio europeu. A captura e armazenamento de carbono é um processo caro e ainda no seu início, visto com desconfiança pelas organizações ambientalistas, mas que permitirá em teoria retirar da atmosfera gases com efeito de estufa. Estes serão depois guardados em depósitos naturais, onde ficam durante séculos sem alterar o clima do planeta.

A novidade deste projeto é o facto de o dióxido de carbono ser importado, liquefeito, e introduzido a alta pressão nas cavidades que ficaram da extração de petróleo. O processo envolve desafios de engenharia e custos elevados.

Segundo o site de notícias Euroactiv, a ambição do governo dinamarquês é atingir a neutralidade carbónica já em 2045 (cinco anos antes do prazo), usando um potencial de armazenamento que excede largamente as emissões do país escandinavo. Outra meta é liderar este setor da indústria e utilizar CO2 capturado de maneira alargada e lucrativa. Por enquanto, está a ser armazenado dióxido de carbono proveniente da Flandres, na Bélgica, mas há interessados na Alemanha e Polónia. A captura do CO2 é feita sobretudo em empresas com fortes emissões, por exemplo cimenteiras ou siderurgias.

A União Europeia apoia estes projetos de captura, mas eles estão longe de ter convencido os ambientalistas, para quem a tecnologia é uma distração do essencial: a Europa deve focar-se na redução mais veloz das emissões, dizem.

Greensand poderá armazenar 1,5 milhões de toneladas de CO2 em 2025 e 8 milhões em 2030. A Comissão Europeia estabeleceu para o final da década uma meta de 50 milhões de

toneladas a nível europeu, fasquia que envolverá grandes somas de dinheiro investido pelas empresas de energia, numa multiplicidade de projetos. Em meados do século, Bruxelas quer superar 300 milhões de toneladas de CO2 guardadas em camadas geológicas seguras.

É preciso contextualizar estes números. Segundo a Agência Internacional de Energia, as emissões de dióxido de carbono atingiram mais de 32 mil milhões de toneladas em 2020. Nesse ano houve uma ligeira quebra face aos valores do ano anterior, que superaram 34 mil milhões de toneladas. Portugal emitiu 37,5 milhões de toneladas, pouco mais de um milésimo das emissões globais. Isto significa que se atingir as suas ambições de 2030, a UE estará a armazenar pouco mais do que a quantidade de CO2 emitida num ano por um país como Portugal, que não é muito industrializado, pelo menos comparado com os seus parceiros do norte da Europa. Apesar disso, a Comissão fala de captura e armazenamento como um elemento "estratégico" da descarbonização.

Proposta europeia

A meta aprovada em março pela Comissão Europeia para este setor emergente da indústria é vinculativa, o que significa que haverá pressão sobre as grandes empresas para que estas reduzam as suas emissões de gases com efeito de estufa. Em novembro do ano passado, Bruxelas apresentou uma proposta (agora em fase avançada de discussão) de limitação das emissões. No texto menciona-se a mudança na eficiência energética dos edifícios, transportes e indústrias, além de medidas de economia circular e aposta em tecnologias de energia renovável.

"Temos de reciclar o carbono proveniente de fluxos de resíduos, de fontes sustentáveis de biomassa ou diretamente da atmosfera", pode ler-se no documento oficial. A captura serviria para produzir combustíveis sintéticos sustentáveis nos sectores mais difíceis de descarbonizar, como "agricultura, cimento, aço, aviação ou transporte marítimo".

A proposta de Bruxelas inclui medidas sobre certificação para evitar más práticas, mecanismos de fixação de carbono, mercado para captura, armazenamento e transporte, práticas agrícolas mais sustentáveis e incentivos a novas tecnologias. Também são admitidos os riscos, por exemplo, a possibilidade de haver libertação do carbono armazenado, por causas naturais ou humanas, sendo que os operadores terão a responsabilidade dos acidentes. Serão aliás as empresas, sobretudo petrolíferas, a escolher os sítios adequados para o armazenamento. O Mar do Norte parece ter condições ideais.

A captura é necessária?

Portugal faz parte destas ambições, mas a sua aposta é sobretudo no investimento em fontes renováveis. Entre 2005 e 2019, as emissões de gases com efeito de estufa caíram 26% e a energia renovável, também em 2019, já era superior a 30% do consumo.

Não é uma prioridade nacional, mas a captura de carbono pode ser crucial para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa no mundo. Muitos cientistas dizem que sem essa tecnologia o combate às alterações climáticas pode estar comprometido. Em primeiro lugar, será necessário encontrar processos económicos de retirar o gás da atmosfera. A forma mais comum de captura é feita diretamente nas chaminés das fábricas (siderurgias, cimenteiras), mas a tecnologia é dispendiosa e experimental. Para atingir a neutralidade carbónica, as taxas de captura terão de ser muito mais elevadas do que as atuais.

Os governos estão a recorrer a subsídios e incentivos fiscais para estimular o mercado. Nos EUA, por exemplo, o Governo federal paga 85 dólares por cada tonelada métrica de CO2 guardada no subsolo e as produtoras de biocombustíveis estão a investir neste negócio. Estas unidades (numerosas e de pequena dimensão) transformam milho em etanol, mas o processo origina grandes quantidades de dióxido de carbono, que passa a ser recolhido, transportado por gasoduto para fábricas maiores as quais, por sua vez, produzem metanol (fonte renovável que pode ser usada como combustível em navios).

Os ambientalistas têm criticado algumas das tecnologias envolvidas na captura e armazenamento do dióxido de carbono. O gás é bombeado no subsolo, geralmente para velhos poços de petróleo, e os ambientalistas afirmam que uma proporção de quatro quintos desse carbono capturado e bombeado serve para uma técnica de extração adicional de petróleo. As quantidades efetivas também são dececionantes, apenas 0,1% de todas as emissões.

A questão é controversa e há cientistas a afirmar que, sem captura e armazenamento, o mundo terá enorme dificuldade em atingir as metas de descarbonização. Se os métodos hoje existentes não servirem, será necessário investir em outras soluções, por exemplo algas, que têm elevada capacidade de absorção de CO2. Ainda não existe uma forma comercialmente viável neste domínio, mas algumas experiências científicas parecem promissoras.

Os cientistas do clima querem reduzir a atual proporção de dióxido de carbono na atmosfera do planeta de 416 partes por milhão (ppm) para menos de 300 ppm. O ideal seria regressar ao valor pré-industrial de 280 ppm de concentração de dióxido de carbono na atmosfera, mas até manter o valor de hoje poderá ser difícil.

Refira-se que os cientistas conhecem as concentrações de gases que ocorreram no passado, através da medição do ar aprisionado em camadas de gelo. Também é muito rigoroso o cálculo das proporções médias que se registam neste momento (a NASA tem um satélite que faz dez mil medições diárias de CO2). O impacto dos gases com efeito de estufa no clima é

conhecido, a influência humana é demonstrada pela aceleração do aumento de concentração dos gases com efeito de estufa.

Nem tudo é conhecido, o carbono tem um ciclo complexo, ligado às plantas, aos vulcões e aos oceanos, que se manteve geralmente em equilíbrio durante milénios. Desta vez, os sinais de desordem provocada pelo aumento do CO2 no sistema climático do planeta estão por todo o lado. Além disso, sabe-se que este gás com efeito de estufa, uma vez produzido, pode permanecer na atmosfera durante um período entre 300 anos e 1000 anos. Isto significa que, caso a humanidade parasse hoje de queimar combustíveis fósseis, as emissões de ontem continuavam a alterar o clima do planeta.

Este é o argumento principal de quem defende a captura e armazenamento de CO2 para evitar que o aumento da temperatura média do planeta ultrapasse o limite de 2 graus centígrados, a partir do qual o planeta entra em território perigoso e desconhecido.

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