Miguel Castro Neto: "Tem que se cruzar dados antes de implementar políticas transversais à cidade"

2023
22-09-2023

As políticas com vista à melhoria da mobilidade - e consequente ganho ambiental - precisam de ser experimentadas antes de serem aplicadas defitivamente. É preciso avaliar o antes e o depois, defendeu Miguel Castro Neto, no Portugal Mobi Summit, onde disse que o uso de bicicletas não está a aumentar em Lisboa

“A mobilidade é o maior desafio que enfrentamos quando falamos de gases com efeitos de estufa.” As palavras são de Miguel Castro Neto, diretor da Nova IMS e fundador da Nova Cidade – Urban Analytics Lab que, na conferência “Rumo a um Mundo Net Zero - Os Desafios da Transição”, a decorrer em Lisboa, salientou a importância de se analisar dados para que se apliquem políticas corretas e nos locais certos com vista à neutralidade carbónica. E também que essas políticas sejam consentâneas com as verdadeiras necessidades. A questão ficou no ar: se o número de bicicletas em Lisboa não está a crescer, fará sentido construir mais ciclovias sem testar se são necessárias?

Miguel Castro Neto, que é também chairman da Lisboa E-Nova, cargo para o qual foi convidado pelo presidente da autarquia, Carlos Moedas, falou do trabalho de decifrar o sistema circulatório da Área Metropolitana de Lisboa (AML) e como se comportam os engarrafamentos nas 24 horas do dia nos eixos principais. Recordando, a propósito, que entram na capital portuguesa 370 mil carros todos os dias e que Lisboa integra o grupo de 100 cidades que pretende atingir a neutralidade carbónica em 2030 – na União Europeia o objetivo prolonga-se até 2050, através da Lei Europeia do Clima.

As emissões de gases e o ruído é “muito impactada por esta lógica pendular”, afirmou o orador do Portugal Mobi Summit, que decorre em Lisboa no âmbito da Semana Europeia de Mobilidade.

Decidir políticas que possam ser aplicadas transversalmente à cidade passa por estudar os dados disponíveis, para assim “perceber os constrangimentos”. “Há zonas da Baixa de Lisboa que estão permanentemente engarrafadas” e o nível sonoro contínuo acaba por ser equivalente. A título de exemplo, Miguel Castro Neto referiu a semana da Jornada Mundial da Juventude que, apesar de ter contribuído pata a diminuição do número de engarrafamentos, não alterou a média de ruído elevado.

O processo, disse, deve passar pelo cruzamento dos dados disponíveis em várias frentes, que devem ser submetidos a uma análise detalhada para que só então se testem soluções e se tomem decisões. “Tem que se medir antes e depois para se saber os resultados antes de implementar políticas transversais em toda a cidade.”

Mais um exemplo: esta semana foi apresentado um projeto de mobilidade na Baixa - uma ciclovia pop up que liga a Rua da Prata aos Restauradores. A ideia é ver os resultados para perceber se deve ser implementada definitivamente.

Uma experiência de mobilidade, quando a utilização de bicicletas está estabilizada, não tem registado crescimento, afirmou o diretor da Nova IMS. Isso mesmo dizem os dados analisados nas quatro principais ciclovias da cidade – nas avenidas Almirante Reis, da República, Duque d’Ávila e Fontes Pereira de Melo.

Razão pela que a abordagem deve ser a resolução dos problemas da mobilidade sempre com evidência nos dados, preconizou. E que só depois disso devem ser melhoradas e desenvolvidas políticas para responder aos problemas.

Miguel Castro Neto alertou ainda para o problema de fiabilidade ao nível da rede de monitorização de tráfego de Lisboa, que está a ser melhorada.

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