
Transportes públicos precisam de visão integrada e menos paroquial

Os principais problemas e desafios dos transportes públicos só serão resolvidos com “uma visão integrada”. “Temos de ter uma visão mais alargada e menos paroquial”, considerou Rui Lopo, administrador da Transportes Metropolitanos de Lisboa, esta tquarta-feira, no Mobi Summit.
Num debate sobre os problemas e desafios futuros dos transportes públicos, Rui Lopo, administrador da Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML), defendeu que a visão "umbiguista" dos municípios acaba por ser um obstáculo à melhoria da rede.
“Temos de ter uma visão mais alargada e menos paroquial, conseguirmos aguentar uma visão metropolitana e de país para a questão dos transportes, que não sei se aguentamos. Um autarca quer que na sua terra as coisas funcionem bem, temos todos de fazer um esforço de pensar e agir muito mais longe do que os nossos umbigos. Este não é um problema que se resolve em Oeiras, Lisboa, Cascais ou Almada, resolve-se como um todo”, considerou esta tarde de quarta-feira, no painel “O que nos afasta dos transportes públicos?”, acrescentando que "ou temos uma visão integrada ou não vamos evoluir".
Uma visão partilhada por Tiago Farias, professor do Instituto Superior Técnico e ex-presidente da Carris. “Quando olhamos para as cidades há um desequilíbrio enorme no transporte intermodal. A primeira reação das pessoas é que precisamos de um sistema mais eficiente, mais inclusivo e mais conectado. Alguém tem de ser capaz de planear e esse planeamento não deve ser do operador, mas de quem planeia e gere a mobilidade e, em última análise, de quem planeia o espaço público”, frisou o membro do painel, sublinhando ainda que é “preciso haver uma integração maior, não apenas municipal pois a mobilidade não termina na fronteira do município”.
Diogo Martins, especialista em acessibilidade em transportes públicos, considerou que “era importante pararmos de andar para a frente e para trás”. “Em termos de políticas, nos transportes públicos, andamos para a frente, mas depois muda-se de governo ou presidente da câmara e voltamos a andar para trás não sei quantos anos. Temos de ter estrutura para conseguir melhorar isto e otimizar os serviços”, observou.
O ativista alertou ainda para a falta de atenção dada às reclamações dos utentes. “Não falamos com as pessoas, não queremos saber o que os passageiros precisam ao contrário de outros países. A generalidade das pessoas não se sente ouvida ou incluída, normalmente respondem que as queixas não têm resultados práticos”, lamenta.
A evolução tecnológica e a introdução de soluções digitais nos transportes públicos foi outro dos assuntos em discussão, com Tiago Farias a lembrar que “a tecnologia é fundamental e a transformação digital que estamos a viver é incontornável”, mas ainda há vários desafios. “A dificuldade é que por haver vários operadores e o ecossistema ser complexo não temos uma ferramenta única de planeamento, previsão e informação”, notou.
Quanto às principais metas das alterações climáticas, até 2050, Rui Lopo disse que para “conseguirmos atingir esses objetivos” são necessários “profissionais qualificados, novos terminais e interfaces”, acrescentando que “a dificuldade em encontrar mão de obra para conduzir autocarros é uma tema central”. Para 2024, a TML, rede criada há dois anos, promete “um reforço na digitalização e na desburocratização do acesso aos títulos de transportes e ao passe navegante” .