
UE impõe regras para redes de energia, mas Portugal não tem lei para hidrogénio

Cascais é pioneiro na utilização de autocarros a hidrogénio, que tem de ser importado de Espanha porque Portugal ainda não tem legislação para a produção de hidrogénio por privados. Mas há um novo regulamento comunitário que vai exigir mais rapidez e investimento nas redes de abastecimento.
Cascais já tem quatro autocarros de passageiros movidos a hidrogénio, mesmo que em Portugal ainda não exista legislação que regule a sua produção por privados. Por isso, o hidrogénio é importado de Espanha, explicou Miguel Casaca, o presidente da Cascais Próxima, a empresa municipal que, em parceria com a PRF Gas Solutions e a Caetano Bus, está a ser pioneira na introdução do hidrogénio na mobilidade urbana em Portugal.
Para contornar a lacuna legal, as duas empresas escudaram-se na diretiva europeia sobre esta matéria e a PRF avançou com um centro de produção piloto, em Cascais, que deverá dar lugar a outro definitivo em breve. Mas tanto Miguel Casaca quanto Paulo Ferreira, CEO da PRF , consideram que o atraso no enquadramento legal “está a condicionar e limitar o desenvolvimento deste setor” em Portugal, que noutros países europeus já vai bem mais avançado. Um exemplo é o caso da Alemanha, que conta com cerca de 70 centros de produção de hidrogénio. “Era só copiar e traduzir a diretiva europeia”, disse Paulo Ferreira.
O tema do hidrogénio esteve presente nas duas conferências realizadas no âmbito do Portugal Mobi Summit, porque é central na estratégia de desacarbonização dos transportes, em especial do transporte pesado. As vantagens de operar uma frota elétrica movida a hidrogénio foram realçadas pelos oradores.
Nuno Carvalho, diretor comercial da Caetano Bus (líder europeu na produção de autocarros elétricos a hidrogénio) entende que para as pequenas frotas as baterias fazem sentido, mas que os operadores com um grande número de autocarros devem repensar a sua estratégia para poderem cumprir as metas de descarbonização. Pegando no tempo de abastecimento como exemplo, disse que um elétrico a bateria leva 3 a 5 horas a carregar, enquanto o abastecimento de um elétrico a hidrogénio demora 30 a 40 minutos. Por outro lado, um autocarro a bateria tem de carregar 800 quilos de baterias, o que significa menor capacidade de transporte de passageiros.
As vantagens desta alternativa foram igualmente sublinhadas pelo vice-presidente da Adene - Agência para a Energia que a considera como uma boa solução para a mobilidade urbana. Bruno Veloso lembra que, apesar do vazio legal, a Estratégia Nacional para o Hidrogénio representa uma almofada de conforto para os investidores.
Da parte do Governo, o secretário de Estado da Mobilidade, Jorge Delgado, admitiu avançar com uma rede-piloto de hidrogénio dentro de dois anos, a começar numa só região, mas não avançou detalhes sobre os planos nesta matéria. Com maior ou menor velocidade, o certo é que o investimento público nas redes de abastecimento vai mesmo ter de aumentar.
Regulamento europeu
O novo regulamento europeu para a criação de uma infraestrutura para combustíveis alternativos (AFIR), que foi publicado em setembro e entrará em vigor daqui a meio ano, estipula, entre outras coisas, metas em termos de número de postos de carregamento e respetiva potência ao longo das principais vias públicas, tanto para ligeiros e pesados, elétricos ou a hidrogénio. No caso dos automóveis aponta-se que, até 2025, deve haver estações de carregamento rápido de, pelo menos, 150 kW, a cada 60 quilómetros, dos principais corredores de transporte da União Europeia.
Mas esta regulação também irá proporcionar mudanças a “nível de interoperabilidade, experiência do cliente e informação do consumidor, portanto, uma harmonização da experiência de carregamento a nível europeu e requisitos técnicos”, sublinhou o diretor de Mobilidade Inteligente da EDP, Gonçalo Castelo Branco.
Portugal até está acima das metas traçadas em alguns indicadores, mas “uma grande parte dos carregadores que estão em espaço de acesso público, entre 70 a 80% na Europa e em Portugal, não são rápidos e ultrarrápidos”, exemplificou.
Franco Caruso, Diretor de Sustentabilidade e Comunicação do Grupo Brisa, sublinhou que a empresa construiu, em parceria com outras empresas, uma rede de carregamento elétrico “alinhada com os requisitos” da nova legislação e permite que em 2023 já exista “uma rede primária instalada nas autoestradas”. As principais dúvidas são em relação ao hidrogénio: O que vamos ter daqui a uns anos em termos de oferta do parque circulante? Que dificuldades vamos ter para implementar uma rede que prevê a colocação de postos de abastecimento de hidrogénio com intervalos médios de 200 quilómetros? Questões que ainda não têm uma resposta clara da parte do Governo.
Carla Aguiar