Aviões poluentes podem ser considerados 'investimento verde'

2023
30-07-2023

Companhias conseguiram mudar a classificação de uma proposta de Bruxelas e garantiram acesso a fundos comunitários para o ambiente.

A Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (TE), uma das mais influentes organizações europeias no setor da mobilidade, contesta a inclusão de aviões e navios mais "eficientes" na lista europeia de investimentos verdes. Estas críticas surgem numa discussão sobre o plano da Comissão Europeia que visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa nos setores da aviação e do transporte marítimo.

As intenções de Bruxelas são elogiadas, mas há resistência em relação aos detalhes, nomeadamente na chamada "taxonomia da UE", o sistema de classificação das atividades ambientalmente sustentáveis, cuja discussão terminou em junho.

Segundo a TE, as transportadoras conseguiram negociar a inclusão de aviões e navios que ainda usam combustíveis fósseis, o que permitirá canalizar dinheiro europeu dos investimentos ambientais para empresas poluentes. Os dirigentes da federação dizem que nesta classificação passam a ser considerados "verdes" pelo menos 90% dos aviões encomendados à Airbus ou um terço da frota low cost da Ryanair. No setor marítimo, a lista inclui o uso de gás natural liquefeito e os ambientalistas afirmam que deixa de haver incentivo para os navios de cruzeiro mudarem para tecnologias não poluentes.

Apesar das críticas, a iniciativa europeia promete ter grande impacto na aviação a partir de 2025. O setor vai ser forçado a usar maior quantidade de combustíveis com menos emissões de gases com efeito de estufa. A Comissão incorporou as propostas do Parlamento Europeu e é beneficiado o uso de combustíveis sintéticos (e-querosene), em detrimento dos biocombustíveis feitos a partir de resíduos agrícolas.

Este programa, conhecido por ReFuelEU, estimula o uso dos chamados combustíveis de aviação sustentáveis (SAF, na sigla inglesa), que libertam menos carbono, permitindo também reduzir os conteúdos de enxofre, além de melhorarem a qualidade do ar em torno dos aeroportos.

A questão dos preços
A aviação contribui para 2% a 3% das emissões de dióxido de carbono, mas há cálculos que colocam o problema num patamar superior, atribuindo-lhe pelo menos 5% do efeito de estufa no planeta. No que diz respeito aos transportes, a aviação é responsável por 14,4% das emissões de carbono, os fretes marítimos por mais 13,5%. A União Europeia quer reduzir as emissões destes gases (a meta é conseguir menos 55% em 2030) e não o poderá fazer sem medidas que terão impacto no preço das viagens aéreas.

No final de abril foi obtido um acordo de conciliação entre Conselho Europeu e Parlamento Europeu que propõe medidas de redução de carbono, para atingir os objetivos ambientais da UE a partir de 2030. A iniciativa baseia-se no aumento gradual destes combustíveis sustentáveis (SAF), que são mais raros e mais caros do que os combustíveis fósseis. A partir de 2025, os voos que partirem de aeroportos europeus devem consumir pelo menos 2% de SAF. O consumo aumentará de forma gradual, até ser de pelo menos 70% em 2050.

Estão previstas outras medidas, como a redução dos voos com tanques cheios, a que as companhias recorrem para evitar o reabastecimento em aeroportos onde os preços possam ser mais altos. Esse peso extra consome energia e a Comissão quer acabar com a prática.

Provavelmente levará décadas a conseguir que a aviação seja neutra nas emissões de dióxido de carbono. Há limitações tecnológicas e de preço. Os construtores terão de fabricar aviões diferentes. Os combustíveis sustentáveis exigem muita energia no fabrico, por exemplo hidrogénio produzido com eletricidade de fontes renováveis. Em relação ao combustível de aviação convencional, os preços podem ser quatro vezes superiores. Para além dos custos de renovação das frotas, a introdução gradual terá impacto nos preços das viagens aéreas.

Algumas organizações ambientalistas dizem que o problema não se resolve sem preços mais elevados. A energia verde fica mais cara (o hidrogénio é produzido a partir de eletrólise da água, que exige eletricidade a partir de energia solar). Na tese dos ativistas, não faz sentido gastar energia cara para fabricar combustível gasto preferencialmente pelas elites; a melhor solução será reduzir o número das viagens aéreas, o que na Europa implicará tarifas mais altas e incentivos para a mobilidade ferroviária: por exemplo, eliminar voos com menos de 600 quilómetros em rotas onde haja comboios de alta velocidade.

Embora o número de viagens aéreas esteja a crescer, calcula-se que apenas 5% a 10% da população mundial viaje anualmente, o que reforça o argumento deste ser um setor que beneficia apenas um grupo limitado. No fundo, haverá um dilema político a agudizar-se nos próximos anos: queremos resolver a crise climática e aceitamos tarifas mais altas na aviação; ou teremos uma indústria low cost massificada, que precisa de grandes quantidades de passageiros e de vastas emissões de gases com efeito de estufa?

Luís Naves

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