Europa define regras para redes de carregamento elétrico e a hidrogénio

2023
22-09-2023

Regulamento foi hoje publicado e traça metas para o número de postos de carregamento e potência ao longo das principais vias públicas

O novo regulamento europeu para a criação de uma infraestrutura para combustíveis alternativos (AFIR), que foi hoje publicado e entrará em vigor daqui a meio ano, “deixa as fundações” para o crescimento que se espera na mobilidade elétrica nos próximos anos, disse hoje Gonçalo Castelo Branco, Diretor de Mobilidade Inteligente da EDP, no debate “AFIR - Portugal está preparado para a nova legislação europeia?”, na Portugal Mobi Summit.

Entre outras coisas, passa a haver metas em termos de número de postos de carregamento e respetiva potência ao longo das principais vias públicas, tanto para ligeiros e pesados, elétricos ou a hidrogénio. No caso dos automóveis de passageiros e veículos comerciais ligeiros, por exemplo, aponta-se que, até 2025, deve haver estações de carregamento rápido de, pelo menos, 150 kW, a cada 60 quilómetros, dos principais corredores de transporte da União Europeia.

Mas esta regulação também irá proporcionar mudanças a “nível de interoperabilidade, experiência do cliente e informação do consumidor, portanto, uma harmonização da experiência de carregamento a nível europeu e requisitos técnicos”, sublinhou Gonçalo Castelo Branco.

Portugal está bem, estando até acima das metas traçadas em alguns indicadores, mas mesmo assim há trabalho a fazer. “Uma grande parte dos carregadores que estão em espaço de acesso público, entre 70 a 80% na Europa e em Portugal, não são rápidos e ultrarrápidos”, exemplificou Gonçalo Castelo Branco.

Franco Caruso, Diretor de Sustentabilidade e Comunicação do Grupo Brisa, sublinhou que a empresa já havia construído, em parceria com outras empresas, uma rede de carregamentos elétricos que está “alinhada com os requisitos” da nova legislação e permite que em 2023 já exista “uma rede primária instalada nas autoestradas”. As principais dúvidas são em relação ao hidrogénio: O que vamos ter daqui a uns anos em termos de oferta do parque circulante? Que dificuldades vamos ter para implementar uma rede que prevê a colocação de postos de abastecimento de hidrogénio com intervalos médios de 200 quilómetros?

Trás-os-Montes e Alentejo a descoberto

Tem de haver um “esforço coletivo de alavancagem deste processo”, acrescentou Caruso. Por um lado, apesar de, em agosto, 43% dos veículos vendidos terem sido elétricos ou híbridos, a expressão disso no parque automóvel nacional é “exígua, é menos de 1%”. Por outro, o custo dos equipamentos de carregamento é “muito elevado”. Por isso, defende o responsável da Brisa, “tem de haver uma disponibilidade política de continuar a prestar incentivos não só do ponto de vista da frota, mas também do ponto de vista do carregamento, até para estimular o surgimento de operadores que cubram aquelas zonas que não têm dimensão ou procura que justifique uma rede nacional”.

Henrique Sánchez, presidente do Conselho Diretivo da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE), considera que a rede pública de carregamento está razoavelmente instalada, mas ainda há falhas. Há zonas do país onde há poucos utilizadores deste tipo de veículo e deverá ser difícil cumprir a meta da AFIR de ter um posto a cada 60 quilómetros, pelo que será “útil” a intervenção do Estado. A UVE já identificou essas zonas e avisou que “Trás-os-Montes e Alentejo central são as áreas mais desprovidas de carregadores”.

O presidente da UVE alertou ainda para a questão do pagamento dos carregamentos, que segundo a AFIR deve “poder ser feito através de um meio universalmente aceite, ou seja, com cartão de débito ou crédito”.

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