
Mobilidade: O primeiro driver para a mudança são as pessoas

A integração de soluções que sejam alternativa à utilização do carro no dia-a-dia é obrigatória para garantir uma boa gestão da mobilidade urbana. É preciso mudar comportamentos e mentalidades, mas também a regulação e as políticas.
Incentivar o uso de transportes públicos, viaturas partilhadas, bicicletas ou trotinetes tem que partir dos operadores e dos municípios que gerem os modos de mobilidade urbana disponíveis em cada local. “Temos de ser capazes de apresentar soluções que possam ser menos gravosas do que o transporte próprio para que as pessoas tenham vontade de experimentar”, defendeu José Manuel Viegas, durante o painel “Transport Research Arena Lisbon 2022 - O futuro da mobilidade em Portugal e na Europa", que encerrou os trabalhos de hoje no Palco 2 do Portugal Mobi Summit 2022.
Para o presidente do Conselho de Ambiente e Sustentabilidade da EDP, as soluções disponíveis dependem de quem opera os transportes e de quem governa. “Atualmente, nenhum modo de transporte é competitivo com o carro, mas se pudermos ter um leque de opções, conseguimos facilmente uma redução de 30 a 40% na utilização diária deste meio de transporte”, salienta. A oferta tem, contudo, de ser atrativa e eficiente para que seja vista como uma alternativa para, pelo menos, alguns dias do mês. O passe mensal, exemplifica, “já não faz sentido porque as agendas de grande parte das pessoas não são sempre as mesmas”. Por isso, defende o responsável da EDP, a oferta tem que ser adaptada.
“É preciso juntar os diferentes atores da mobilidade para que encontrem soluções conjuntas”, acrescenta Orlando Ferreira. Mas, para tal, o administrador da Rodoviária do Tejo, que também marcou presença neste debate, acredita que é preciso criar “uma regulação que sirva de enabler”. Adicionalmente, aquele responsável salienta que os players da mobilidade têm que ouvir as pessoas que são, na sua opinião, “o primeiro driver porque delas depende a procura pelas soluções de transporte”.
Para quem trabalha na área dos transportes, colocar as pessoas no centro da equação é, na opinião de Joana Mendonça, “uma mudança de paradigma”. A presidente da Agência Nacional de Inovação (ANI) partilha da opinão de Orlando Ferreira, e garante que é muito importante que todos os stakeholders da mobilidade tenham a oportunidade de trocar ideias e experiências. Este é, aliás, um dos objetivos da TRA Conference que este ano de realiza em Lisboa e que tem a ANI como anfitrião e responsável pela organização. Nesta conferência, que terá lugar entre 14 e 17 de novembro, irá discutir-se o futuro da mobilidade em Portugal e na Europa, e da inovação que cada vez mais está subjacente ao tema.
A utilização crescente dos dados para a gestão de infraestruturas, através de um conjunto de tecnologias analíticas é cada vez mais comum, como garante Francisca Ramalhosa. A administradora da EMEL, que completa o painel de debate moderado pela diretora do Dinheiro Vivo, Joana Petiz, exemplifica a utilização dos dados na mobilidade urbana em situações como a escolha da melhor hora para recolher o lixo ou para regar o parque em determinada zona, ou na gestão dos semáforos para garantir fluxos de tráfego mais moderados. Já o recurso aos dados para tomada de decisão e definição de estratégias “é um caminho que anda mais devagar”, afirma.
A responsável da EMEL defende igualmente um maior diálogo entre as ciências sociais e as ciências dos transportes para estudar as pessoas, as suas necessidades e comportamentos. “O grande desafio da mobilidade é olhar para os diferentes perfis de necessidades que a mesma pessoa tem de manhã, à tarde, ao fim de semana, e pensar como promover uma oferta que se adeque”.