Exportar o BEN e usá-lo no Mundial de 2030 é ambição do consórcio Be.Neutral

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03-12-2024

O sistema inovador de mobilidade elétrica de marca nacional vai ser testado até finais de 2025 e Guimarães quer ser pioneira, agora que é Capital Verde Europeia 2026. O Norte quer antecipar as metas da neutralidade carbónica e gerar 2.200 empregos.

A cidade de Guimarães, que acaba de ser eleita Capital Verde Europeia 2026, quer ser o território de teste do sistema inovador de mobilidade da Agenda Be.Neutral, apresentado esta segunda-feira no Instituto de Design de Guimarães. Isso mesmo disse o seu presidente Domingos Bragança, no evento de demonstração da iniciativa, realizado na cidade-berço. O município quer disponibilizar mais 40 hectares para áreas pedonais e mobilidade e sustentável, ao mesmo tempo que aposta numa escola de engenharia aero-espacial.

Criar uma mobilidade mais sustentável é justamente o objetivo da Agenda Be.Neutral, que reúne 44 entidades empresariais e científicas e oito municípios do Norte num consórcio para a formação de um cluster regional de elevado potencial para a indústria automóvel nacional, que pode gerar 700 milhões de euros e 2. 200  empregos. Os parceiros, onde se incluem NOS, CEiiA, TMG, Simoldes e Salvador Caetano, entre outros, fizeram esta semana um ponto de situação e identificaram os passos que faltam para cumprir a ambição de entregarem os primeiros seis veículos elétricos inovadores até final do próximo ano.

A estrela do projeto é o BEN, um veículo elétrico de marca nacional, que tem a particularidade de ser o primeiro integralmente neutro em carbono. “As emissões relacionadas com a sua produção são integralmente compensadas pelo seu uso e a poupança de emissões pode ser medida em tempo real através de uma app” desenvolvida pelo CEiiA, dizem os seus promotores. É também através de um app no smartphone que se poderá reservar o veículo com rede 5G e capacidade para condução autónoma. “É uma espécie de Uber dos Uber”, explicou Manuel Ramalho Eanes, administrador da NOS, que lidera o consórcio. Do inovador sistema de mobilidade faz ainda parte um autocarro elétrico ligeiro com as mesmas características de interconetividade.

“Se o setor automóvel já é lider das exportações na região Norte queremos agora elevar a fasquia e deixar de vender apenas peças, para levar sistemas completos de mobilidade à Europa e ao mundo, num novo paradigma de mobilidade como um serviço”, resumiu Manuel Ramalho Eanes, no debate sobre o futuro da indústria automóvel portuguesa.

“O BEN foi desenvolvido para ser usado e transacionado como um serviço, podendo ser pago juntamente com a fatura da eletricidade ou das comunicações e com integração da IA”, exemplificou Catarina Selada, líder de Estratágia do CEiiA, que tem planos ambiciosos para o seu veículo.“A ideia é aproveitar o Campeonato do Mundo de Futebol 2030 para promover o BEN como embaixador da inovação nacional, será a maior montra”, revelou o presidente executivo do CEiiA, José Rui Felizardo.

A ambição internacional do projeto é, de resto, incentivada pelo PRR e pelo chamado Relatório Draghi, que, ao elencar o automóvel como um dos setores chave para a Europa recuperar terreno na competitividade perdida para a China e os EUA, o transforma numa prioridade. Isso mesmo foi também assumido pelo Governo, pela voz do ministro Adjunto e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, referindo os 128 milhões de euros de fundos à disposição. “A indústria automóvel sempre foi decisiva como motor ecnómico na Europa, mas está a ficar para trás: a China triplicou a quota de mercado nos últimos oito anos, com custos 30% inferiores, e a UE perdeu 20 pontos percentuais no setor. Se queremos inverter esta situação, há que investir mais em I&D, na UE e em Portugal”, defendeu o ministro. O governante saudou o modelo do consórcio porque “reduz o gap entre a ideia a sua concretização num espírito de cooperação estratégica”.

O apoio de uma nova política industrial e de uma política externa mais firme por parte da UE foi uma reivindicação comum aos participantes no debate que juntou diversas entidades como a COTEC e a ACAP, e que reclamam reciprocidade para que a China coloque cá os seus carros. Em suma, “não está em causa baixar as metas climáticas, que são uma oportunidade para continuarmos a investir em I&D, mas sentimos a ausência de uma política industrial que acompanhe a política de sustentabilidade”, sublinhou José Rui Felizardo. Isso contrasta com o forte apoio estatal para a mobilidade elétrica que acontece na China e também nos Estados Unidos.

Também Isabel Furtado, CEO da TMG Automotive, defendeu a exigência de reciprocidade à China. “Precisamos de uma nova industrialização e temos duas opções, ou vamos atrás ou lideramos. Temos capacidade para liderar a agenda”, disse.

Catarina Selada, que apontou os vários projetos de inovação mundial que o CEiiA desenvolveu nos últimos 20 anos, mostrou-se igualmente confiante no sucesso do projeto, porque ao contrário do passado, este é um projeto nacional de co-criação e co-responsabilidade.

“A falta de cultura de capital de risco na Europa, e uma certa incapacidade de criar sindicatos para financiar projetos” também foram lacunas apontadas, nomeadamente por Jorge Portugal, presidente da COTEC, o que faz com que algumas boas ideias acabem por ir parar aos Estados Unidos, exigindo os financiadores que as suas sedes se desloquem para lá.

Carla Aguiar

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