
Presidentes de Oeiras e de Cascais reclamam um corredor para transporte coletivo na A5

Autarcas de Cascais, Oeiras e Aveiro criticaram as entidades “majestáticas” do setor e defendem o fim do IMT por inoperância a resolver os problemas da mobilidade urbana em Portugal.
Para melhorar as redes de transporte público e a mobilidade dos portugueses, os autarcas reclamam que as entidades com responsabilidade na área “deixem de funcionar como quintas”, comuniquem umas com as outras e “trabalhem mais para as pessoas” e menos para as estatísticas. Este foi o diagnóstico traçado pelos autarcas de Oeiras, Aveiro e Cascais no painel dedicado aos grandes desafios da mobilidade nas áreas metropolitanas, hoje, durante a conferência de lançamento do Portugal Mobi Summit 2024/2025, no Parque dos Poetas, em Oeiras.
Um exemplo apontado dessa ineficiência está na manutenção da autoestrada Lisboa-Cascais (A5) há décadas com as mesmas características de traçado como se não tivesse havido um crescimento massivo de população e, consequentemente, de tráfego automóvel.
Em causa está o projeto, há muito, defendido pelos municípios de Lisboa, Oeiras e Cascais de ter um corredor dedicado na A-5 para transporte coletivo, como, por exemplo, o BRT, mas que não há meio de sair do papel e de mitigar o pesado congestionamento do tráfego que se regista todos os dias num dos principais acessos à capital. O problema também se regista no sentido inverso rumo aos vários parques empresariais do concelho de Oeiras ou de estabelecimentos de ensino superior em Cascais.
“A A5 foi projetada em 1930 e a Linha férrea de Cascais concluiu agora 135 anos”, lembrou o vice-presidente de Cascais, Nuno Piteira Lopes, para destacar a necessidade urgente de se melhorar a mobilidade destas populações. “Temos esta coisa rara que é ter os três municípios alinhados numa estratégia comum, que é a solução BRT na A5, mas não se consegue concretizar”. A autoestrada “precisa de obras e ter um corredor dedicado, não há outra solução”, defendeu o autarca. Mas também considerou que não se pode esperar que o Governo que completa agora sete meses de exercício solucione, de repente, uma questão que não foi resilvida na última década.
Mais contundente, o presidente de Oeiras, Isaltino Morais, disse não perceber porque não se renegoceia o contrato de concessão com a Brisa, que equiparou a uma “entidade majestática”, que não está a acompanhar todas as transformações que se verificaram nestes territórios e as suas dinâmicas, antes obstaculizando soluções viárias para melhorar a circulação das pessoas. É preciso renegociar, até porque as estimativas iniciais foram relativas a um volume de trafego, já claramente ultrapassado, afirmou.
Críticas mereceu igualmente o IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes), tanto da parte de Isaltino de Morais como de Ribau Esteves, que acumula a presidência de Aveiro com a vice-presidência da Associação Nacional de Municípios Portugueses. “Há que acabar com o IMT, é mau demais para ser verdade”, atirou Ribau Esteves, obtendo aplausos da audiência. O consenso em torno das críticas ao IMT estará relacionado com acusaçoes de inoperância, falta de comunicação com os municípios e respostas que chegam com dois anos de atraso, acrescentou o autarca. Isaltino Morais acusou mesmo: “Não sei o que faz o IMT, dá pareceres negativos a tudo”.
Ribau Esteves apontou ainda o caso de uma empresa nacional de transportes, cujo sistema de bilhética não comunica entre si na própria empresa a todos os níveis municipal e intermunicipal. “Há quatro anos que estão a estudar”, para resolver, caricaturou ainda.
“Agora temos um governo novo e esperemos que seja capaz de virar o jogo”, conclui o autarca de Aveiro.
Pela Área Metropolitana de Lisboa (AML), Carlos Humberto de Carvalho destacou os progressos feitos nos últimos anos, com a introdução do Passe Navegante em toda a área metropolitana de Lisboa. Sobretudo para a Carris, o responsável explicou que o crescimento de passageiros tem obrigado a um intenso reforço de carreiras para acomodar os novos fluxos de procura.
"Desde janeiro o número de passageiros transportados pela Carris está a crescer em torno dos 24 a 25%", disse o primeiro secretário da Comissão Executiva da AML. No total, até outubro foram 17 milhões de pessoas transportadas no conjunto do território metropolitano, até outubro, adiantou.
Carlos Humberto de Carvalho considerou que os problemas elencados pelos autarcas e pelo uso excessivo do carro individual só se resolvem com planeamento, persistência e visão sistémica. "É um problema sério, que só se resolve com um conjunto vasto de medidas, que envolvem transporte coletivo em sítio próprio, mais autocarros, metro e uma visão integrada". Aquele responsável considerou que, apesar de Portugal estar numa posição razoável em tecnologia, "os interfaces não têm qualidade".
Tudo isto não se resolve apenas com decisões municipais, mas também implicam iniciativas legislativas do Governo, considerou aquele responsável.
A tónica principal para melhorar a mobilidade deve ser colocada no planeamento das cidades e na visão a longo prazo das necessidades futuras, concordaram os participantes do painel dedicado aos desafios de mobilidade urbana, moderado pelo diretor-adjunto do DN, Nuno Vinha.
Redacao DN