Jan Gehl. “Em Copenhaga decidimos criar a melhor cidade do mundo para pessoas e bicicletas”

Mobi Entrevistas
16-01-2025

O urbanista dinarmarquês que inspirou a mobilidade inovadora de Copenhaga defende que as cidades têm de ser redesenhadas em função das pessoas, com aposta na bicicleta e no transporte público e considera que o turismo de massas e os cruzeiros estão a arruinar as cidades. “Deviam ser dinamitados”, disse em entrevista Mobi Summit.

“Primeiro a vida, depois os espaços e só depois os edifícios” é a premissa de Jan Gehl, o arquiteto e urbanista dinamarquês que inspirou, desde os anos 70, a estratégia de Copenhaga enquanto cidade orientada para peões e ciclistas, bem como de muitas outras cidades em todo o mundo. Hoje nos seus 80 anos, o urbanista é sócio fundador da Gehl Architects e autor de livros que impactaram o pensamento sobre as cidades, como Live Between Buildings ou Cities for People e deu uma entrevista no âmbito do Portugal Mobi Summit.

Costuma dizer, a título de perspetiva histórica, que foram os modernistas dos anos 30 do século passado a desvirtuar a lógica do espaço público ao colocar os edificíos no centro, em vez das pessoas. “Eles acreditavam que bastava depois arranjar um arquiteto paisagista e ficar à espera de ver se acontecia ali alguma vida, o que raramente aconteceu”, diz. Passaram muitas décadas para os autarcas voltarem atrás nessa lógica e começarem a redesenhar as cidades com mais foco nas pessoas. “Embora não esteja impressionado com todos os resultados, há exemplos muitos bons aqui e ali”. Cita, por exemplo, a famosa área habitacional BO01 em Malmö, na Suécia, como “um lugares onde realmente se tentou colocar as pessoas e os espaços antes dos edifícios”. É um exemplo de cidade sustentável 100% abastecida por energias renováveis que foi construída para recuperar uma antiga área industrial. “Depois, acho que os novos modernistas na América, também têm alguns bons princípios - embora não goste da arquitetura deles e sejam demasiado ligados aos carros, mesmo que fiquem escondidos atrás das casas. Mas, pelo menos, afirmam priorizar as pessoas, o espaço e só depois os edifícios”. Para Jan Gehl, nesta mostra de bons exemplos, é impossível não falar do caso dinamarquês: “em Copenhaga decidimos em 2009, há 16 anos, que fariamos a melhor cidade do mundo para as pessoas e em 2011 traçámos o plano de ser a melhor cidade para bicicletas”. E, garante, “é uma estratégia que ainda está em curso”.

O conceituado urbanista, que continua no ativo, considera que “essa estratégia tem sido muito útil”, porque acredita mesmo que o planeamento e a arquitetura do espaço são determinantes no modo de fruir a cidade. “Descobrimos que, em função do bom ou mau planeamento, podiamos ter duas cidades próximas uma da outra, uma cheia de vida e outra morta. Há zonas e quarteirões dos quais as pessoas querem fugir, enquanto há praças que são tão maravilhosamente concebidas que vêm pessoas de toda a cidade para se encontrar lá, tomar o brunch ou fazer a festa de aniversário, como acontece numa nova praça em Oslo, na Noruega. Ou seja, a diferença de comportamento das pessoas com o lugar depende de quão cuidadoso ou negligente se foi com aquele espaço”.

Jan Gehl fez uma lista de 12 critérios a observar para garantir que as pessoas gostam de um espaço e verificou que numa praça da nova Copenhaga, a que as pessoas não aderiram, “dos 12 critérios de qualidade, eles ignoraram 13”. O autor escreveu, aliás, dois livros sobre os principais critérios para desenhar uma cidade para as pessoas. “A proteção e segurança é importante para as pessoas e o conforto também, garantindo que se está bem a andar, sentado a conversar, em pé, e que o espaço possa ser tanto um ponto de observação como de diversão. E a terceira linha é sobre ter uma escala humana, que também permita aproveitar o lado bom do clima”. E, claro, “deve haver algumas boas qualidades estéticas visuais”, observa, mas não o destaca como o ponto mais importante.

No início do seu trabalho, Gehl criticou muito os colegas arquitetos por não pensarem no comportamento das pessoas e só estarem focados nos edifícios. Gaehl admite que beneficiou no seu trabalho do facto de ser casado com uma psicóloga. Mas demorou muito tempo até se começar a perceber a necessidade de adivinhar o que as pessoas gostam e não gostam. Só há cerca de 20 anos se começou a ter em conta, reconhece. “Agora, os meus livros são usados como material didático em toda a parte”, refere.

“O passo fundamental é trabalhar para mudar mentalidade de quem faz, habita e se move no espaço urbano, a partir daí você pode seguir em frente e mudar as cidades, foi o que nós fizemos, o que eu fiz”. Mas, observa, “é preciso explicar a razão e quais são os ganhos de mudar”. Isso também tem de ser explicado aos políticos e autarcas, defende. “Foi isso mesmo que descobrimos em Nova Iorque e Sydney e outras cidades como Melbourne, na Austrália, onde trabalhámos: se mudarmos a maneira como as pessoas pensam, a partir daí, pode-se começar a humanizar a cidade”.

Dinamitar os terminais de cruzeiros

Gaehl considera que a ideia de abandonar a cidade e ir viver no campo por desagrado com a vida urbana, como tem acontecido em Portugal, não é tão global quanto se possa pensar, muito pelo contrário. “Isso foi assim nos anos 70, 80, mas agora é o inverso”, diz.

“Na maioria dos países, vemos uma forte necessidade de nos aproximarmos da cidade, de nos aproximarmos dos serviços. As moradias mais caras agora são muito centrais, já não estão nos subúrbios ou na costa. Quanto mais próximo você estiver do centro, maior será o valor da sua moradia”. O arquiteto alerta, no entanto, para o problema do turismo de massas, que “está a arruinar” as cidades. “Perguntaram-me a certa altura, o que eu faria para melhorar Copenhaga e eu respondi: Dinamitar o terminal de cruzeiros, fazê-lo explodir, porque este tipo de turismo em que milhares se aglomeram nas cidades, arruína as cidades e faz com que os seus habitantes não gostem de viver nelas”.

“Eu sei que Lisboa também tem este problema. Mas, ao mesmo tempo, é importante combatermos esta tendência de fuga, porque se quisermos fazer mais pelo clima e ter melhores serviços, melhores sistemas de aquecimento, linhas de serviço mais curtas nas ruas e menos necessidade de mobilidade, temos que nos movimentar juntos nas áreas urbanas e não nos espalharmos e aumentarmos a distância. Se todos nós, os nove biliões de pessoas no mundo, nos espalhássemos, o planeta entraria em colapso imediatamente. O que é preciso é lutar contra os fatores que tornam a cidade menos atrativa”.

Dentro desta abordagem proativa para melhorar a vida nas cidades, o arquiteto defende a existência de departamentos para a mobilidade ativa e não apenas para os transportes. “Devemos ter transportes públicos bons e baratos, caminhar e usar bicicletas, porque não temos espaço neste mundo para automóveis particulares de uso diário”.

A entrevista a Jan Gehl foi conduzida por Paulo Tavares e Charles Landry, curadores do Portugal Mobi Summit.

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