Stephen Yarwood: “A IA vai prever como as pessoas se movem na próxima hora ou semana”

Mobi Entrevistas
13-01-2025

Daqui a cinco ou dez anos teremos robôs humanóides em casa ou na indústria da construção e o algoritmo será um telescópio para prever o que faremos e como nos movemos, antevê o futurólogo do urbanismo australiano, Stephen Yarwood, numa Mobi Entrevista.

A Inteligência Artificial vai moldar a experiência de mobilidade dentro de pouco mais de cinco anos, porque vai estar presente em toda a parte, desde o robô humanóide em nossa casa ao carro autónomo, mas também no comércio e na indústria, garante o futurólogo urbanista, Stephen Yarwood. Em entrevista Mobi Summit, o ex-autarca de Adelaide (Austrália) e consultor em planeamento estratégico, que fala há uma década do potencial da inteligência artificial (IA) para transformar a mobilidade, considera que “não devemos subestimar a IA”.

E explica porquê: “A IA vai usar o algoritmo para apoiar o planeamento estratégico das cidades, na medida em que vai literalmente prever o futuro. Ou seja, ao coletar em tempo real os dados de mobilidade, vai conseguir prever, com elevado grau de probabilidade, como as pessoas se vão mover na próxima hora, semana ou mês”. Os dados em tempo real funcionam como “um telescópio que nos permite prever o futuro com elevada probabilidade”.

No dia-a-dia Stephen, que passou por Lisboa recentemente, já interage com a IA para melhorar a sua experiência na visita a uma nova cidade, desde a nformação sobre um monumento ou a informação sobre os melhores restaurantes. Mas antecipa que, muito em breve, o próximo nível será uma experiência de maior interação em que conversa diretamente com a IA para melhorar ainda mais essa experiência, à medida que circula. Há várias camadas de informação para explorar uma cidade, que podem ir além dos óbvios pontos turísticos. “Posso perguntar-lhe se, ao visitar uma cidade, é melhor esperar pelo autocarro ou metro ou ir a pé, porque a IA vai dizer-me quanto tempo demora o autocarro a chegar e quanto tempo demoro a ir a pé. Com essa informação todos poderemos tomar decisões mais acertadas e sustentáveis”, garante.

O conceituado urbanista australiano prevê que num futuro próximo todos estaremos ainda mais conectados e, desde que tenhamos a permissão dos nossos amigos e contactos, “vamos poder saber quem se está a dirigir na mesma direcção que nós num determinado momento, o que permite pedir ou dar boleia, para que não tenhamos de usar dois veículos em vez de um só”. Isto remete-nos para aquilo que chama de “cidadãos inteligentes” que acha preferíveis ao conceito de “cidades inteligentes”. Os desafios são de vária ordem, mas só haverá mudanças se os cidadãos consciencializarem a necessidade de adotar novos hábitos. “Há um certo nível de congestionamento de trânsito que é necessário para chegar a uma espécie de saturação, porque acredito que as pessoas só vão mudar quando virem que o autocarro ao seu lado anda mais depressa do que seu carro”.

Na sua visão, sustentada nas estimativas do setor automóvel, os carros autónomos partilhados serão uma peça central da mobilidade do futuro. Ao contrário dos veículos elétricos, que ainda que sejam mais sustentáveis continuam a congestionar o trânsito, o urbanista tem maior confiança nos veículos autónomos partilhados, na medida em que estes podem transportar várias pessoas ocupando o mesmo espaço. Por outro lado, podem ter flexibilidade, sendo opções para “transportar tanto uma tonelada como uma pizza”, exemplifica. “O seu tamanho é ajustável, podendo ter entre duas e oito rodas.”

Robôs tão ou mais espertos que nós


O fundador da City2050 estima que no espaço de cinco a dez anos vamos ter robôs humanóides tão ou mais espertos do que nós, que vão ajudar-nos não apenas em casa nas tarefas domésticas, pelo preço de um carro, como vão ser usados na indústria mineira, da construção, no automóvel ou no retalho. E serão capazes de trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Se há muitos especialistas conceituados que veem neste cenário algo assustador, Stephen Yarwood encara as mudanças em perspetiva com otimismo. “Acredito que as cidades estão sempre a mudar e têm grande flexibilidade e adaptação. O que temos é de integrar todas as ideias, a informação, definir estratégias e inspirar as pessoas e políticas. E escolher muito bem em que tipo de infraestruturas é que se vai investir o dinheiro público”.

Em Adelaide, por exemplo, quando assumiu a presidência do município, entre 2010 e 2014, Stephen criou ciclovias, vias segregadas para transporte público, fechou ruas ao trânsito automóvel e recuperou as zebras que tinham sido banidas da cidade há décadas. Foi polémico, assume, e criou divisões políticas. Enquanto os que vinham de carro dos suburbios tendiam a ser mais críticos, os mais jovens ou os que viviam na cidade foram mais favoráveis, porque perceberam que, em muitos casos, podiam ir a pé para o trabalho numa experiência que se tornou também mais agradável.

Stephen Yarwood criou a City2050, uma consultora global especializada em governança, estratégia e política focada no futuro e orientada para resultados. Trabalha com governos, autarquias e agentes de mudança para apoiar uma liderança estratégica na transição para os desafios das alterações climáticas e não só um pouco por todo o mundo. O urbanista elenca ainda como grandes desafios o combate à obesidade, a subida do nível do mar, a equidade e, claro, o impacto da IA na sociedade.

A entrevista a Stephen Yarwood foi conduzida por Paulo Tavares e Charles Landry, curadores do Portugal Mobi Summit.

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