
“Uma cidade avançada é aquela onde os ricos usam o transporte público”

O ITDP criou uma aplicação que permite aos municípios escolher as melhores localizações de ciclovias e de transportes em mil áreas metropolitanas à escala mundial. O objetivo é aumentar o uso do transporte coletivo, disse o diretor da ONG, Taylor Reich, numa Mobi Entrevista.
“Uma cidade avançada não é aquela em que os pobres se deslocam de carro, mas onde os ricos utilizam o transporte público”. Este é o mote do Institute for Transport and Development Policy (ITDP), uma ONG com sede em Nova Iorque, e é também a razão de ser de um dos seus projetos mais inovadores e abrangentes, o atlas do transporte urbano sustentável, lançado em abril deste ano. “O atlas é um painel de dados online com indicadores de transporte urbano de passageiros sustentável e inclusivo, onde se podem encontrar nove indicadores para mais de mil áreas metropolitanas, bem como medições de mais de 40 mil jurisdições e bairros”, explicou D.Taylor Reich, investigador e membro da direção do ITDP, numa Mobi Entrevista, no âmbito do Portugal Mobi Summit.
Consultando a aplicação é possível saber, por exemplo, quantas pessoas vivem a uma distância de 300 metros de uma ciclovia segura, em praticamente qualquer cidade no mundo. Mas não só. Também se pode ter uma ideia de quantas vivem perto de transporte frequente, transporte rápido, serviços ou escolas e também permite medir a densidade populacional. E para que é que tudo isto serve? “Pretendemos que possa ser uma ferramente útil e ajude municipalidades, sobretudo, nos países de menor rendimento e rápido crescimento, a não cometerem os mesmos erros que os outros países cometeram em matéria de mobilidade”, explicou Taylor Reich.
Como refere a informação oficial no seu website, o atlas é “uma ferramenta poderosa que pode ajudar a orientar investigadores, gestores de planeamento urbano e agências governamentais a entender o estado do transporte sustentável nas suas cidades, ao mesmo tempo que identifica maneiras de melhorá-lo”. Em causa está incentivar o transporte público para escapar ao conceito de cidades centradas no automóvel como via para combater as alteraçoes climáticas.
Para já, a análise dos dados compilados neste atlas permitiu concluir, por exemplo, que quanto mais perto o meio de transporte rápido ou frequente se encontra do sítio onde as pessoas vivem, maior é a sua taxa de utilização. Em Seattle, por exemplo, desde que o município começou a desenhar o transporte frequente mais perto de onde há mais pessoas a uma distancia de 300 metros, tornou-se a primeira cidade com maior taxa de utilização do transporte público, indicou o investigador.
Também nos Estados Unidos, o ITDP comparou as taxas de utilização de transporte público em cidades como Dallas ou Boston e concluiu que, apesar de ambas disporem de cerca de 23 km de vias com transporte rápido, a percentagem de utilizadores de transportes públicos era de aenas 2% em Dallas, contra 17% em Boston. Os dados que constam do atlas permitiram concluir que o elemento diferenciador é a proximidade desses meios de transporte relativamente ao sítio onde as pessoas vivem. Em Boston cerca de 35% das pessoas viviam a uma distancia de 5 minutos a pé contra apenas 5% em Dallas, o que explicava uma taxa de utilização substancialmente superior dos meios coletivos.
O carater global desta ferramenta é o que a torna vedadeiramente única e com um enorme potencial de partilha de experiências em distintos pontos do globo. Com efeito, e para além dos Estados Unidos, a ITDP, tem escritórios em países como o Brasil, onde têm desenvolvido parcerias com agências públicas, China, Quénia ou Índia.
Taylor Reich explicou que a aplicação demorou cerca de dois anos a desenvolver e que as fontes de financiamento são sobretudo oriundas da filantropia. “Tentamos manter independência dos países onde temos projetos”, justificou o diretor do ITDP.
Já a informação com que é construída a aplicação é acedida através de open data. Isso permite também que as pessoas ou instituições posssam aceder diretamente à plataforma e corrigir uma informação que considerem incorreta, respeitante à sua cidade, explicou.
Num futuro próximo, Taylor Reich gostaria de criar indicadores para o atlas que permitissem comparar o tempo que demora a percorrer uma distância urbana por bicicleta, transporte público ou carro individual e levar as pessoas a mudarem os seus hábitos rumo a uma mobilidade mais sustentável.
A entrevista foi conduzida pelos curadores do Portugal Mobi Summit, Paulo Tavares e Charles Landry.
Carla Aguiar